Tarcísio e Haddad fazem campanha com cara de 2º turno, sem adversários competitivos, pouca oscilação nas pesquisas e ofuscada pela disputa nacional

Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) disputam pela 2ª vez o cargo de governador de SP neste domingo (4). Montagem/g1/Divulgação/TV Globo A eleição para o governo de São Paulo de 2026 reeditou, já no primeiro turno, a disputa que Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) travaram no segundo turno de 2022. Com poucos candidatos competitivos e sem grandes oscilações nas pesquisas ao longo da campanha, os dois concentraram a corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, enquanto a disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ocupou parte crescente do debate político no estado. Haddad passou o início do ano, antes da pré-campanha, dizendo que não gostaria de ser candidato e que preferia trabalhar na campanha de Lula, que busca mais um mandato. No fim, foi convencido pelo presidente e deixou o cargo no governo para disputar o Palácio dos Bandeirantes. Ao longo desse período, as pesquisas mostraram poucas mudanças no cenário: Haddad permaneceu na faixa dos 20% das intenções de voto, enquanto Tarcísio aparecia na casa dos 40%, até os últimos Datafolhas que levaram o petista à casa dos 30% e o governador aos 50% dos votos totais. O número reduzido de candidatos competitivos na disputa ao Palácio dos Bandeirantes neste ano e a polarização entre bolsonaristas e petistas fizeram com que as militâncias dos dois lados não se empolgassem com a disputa estadual, focando mais uma vez as discussões para a eleição presidencial e também para a disputa das duas vagas de senador pelo estado, que segue empatada tecnicamente entre quatro candidatos. À medida que as pesquisas indicavam a disputa com chances de ser liquidada no primeiro turno, por causa da presença de apenas dois candidatos competitivos, e a liderança folgada do governador Tarcísio de Freitas, apoiado principalmente pela cristalização do voto conservador do interior do estado, a disputa estadual foi perdendo espaço para os demais cargos em disputa neste ano, principalmente para Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A campanha começou com uma sequência de problemas que poderiam ter alimentado o debate sobre a gestão estadual. Em maio, um acidente em uma obra da Sabesp matou quatro pessoas na Zona Oeste de São Paulo. No fim de junho, um trem da concessionária Trívia Trens pegou fogo e, em meio à crise nas linhas operadas pela empresa, houve a devolução temporária da concessão para a CPTM. Apesar dos episódios, o clima da disputa estadual esfriou ao longo da campanha. Segundo o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os escândalos de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e do filme "Dark Horse" e as brigas dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) contribuíram para tirar o foco das pautas locais e esvaziar a corrida para o Palácio dos Bandeirantes em 2026. "O quadro nacional obviamente afetou São Paulo. E o Tarcísio também procurou ficar distante desse processo por conta da posição confortável dele na pesquisa e dos escândalos envolvendo o Flávio. Tanto que ele não apoiou Flávio Bolsonaro de maneira tão enfática, o que fez apenas nessa reta de chegada e evitou participar de debate público", disse. Confira a pesquisa do Datafolha para o governo de SP "O Tarcísio manteve distância do Flávio para o Flávio não puxá-lo para baixo. E, ao mesmo tempo, também a posição confortável dele [nas pesquisas] recomendava que ele não saísse do debate local. Os escândalos, tanto o Vorcaro como o Dark Horse e todas as questões do Supremo, ocuparam a agenda nacional, em tudo quanto é lugar. (...) Isso acabou afetando a agenda estadual e tomando espaço para a discussão dos problemas locais do estado", explicou Carvalho. O cientista político e sociólogo Antonio Lavareda afirma que "a campanha terminou sendo nacionalizada, até pelo fato de o candidato oposicionista [Haddad] ser o ex-ministro da Fazenda" do governo Lula (PT). Por outro lado, a resistência do próprio Fernando Haddad em assumir novamente a candidatura ao governo de São Paulo, diante de um cenário considerado difícil para o PT no estado, também contribuiu para uma campanha petista com menor mobilização, segundo especialistas ouvidos. "A demora da oposição em definir um nome sempre ajuda aquele que busca a reeleição , porque diminui na prática o tempo da pré-campanha, possibilitando ao mesmo seguir sem sofrer maiores ataques, capitalizando a todo vapor, sem contestação direta, a 'vantagem do incumbente'", disse Antonio Lavareda. O cenário de uma eleição decidida no primeiro turno também levanta uma discussão sobre a estratégia do PT em São Paulo: o resultado reforça a dificuldade histórica da esquerda no estado ou a escolha de Haddad como candidato contribuiu para reduzir as chances de levar a disputa ao segundo turno? Para o especialista, a explicação pode estar menos na força do eleitorado conservador ou na escolha isolada do candidato e mais na estratégia adotada pelo partido. “Pode ter sido um erro de estratégia optar por fazer uma disputa binária contra um governador com aprovação elevada. Com mais candidatos, pelo menos um outro com peso razoável e posicionamento mais ao centro, poderia ter sido maior a chance de ocorrer um segundo turno. Imaginar que eleitores em quantidade suficiente desgarrariam de Tarcísio e atravessariam a rua para endossar Haddad foi uma aposta implausível. A expressão eleitoral do ex-governador Márcio França, ao que parece, terminou sendo desperdiçada na vice do petista", afirmou Lavareda. Resultados e números O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) durante ato de campanha em São Paulo em 2026. Caiuá Maia/Divulgação A campanha de 2026 foi marcada pela tentativa de Tarcísio de apresentar os resultados de sua primeira gestão e, ao mesmo tempo, manter a associação política com o campo bolsonarista. Haddad, por sua vez, procurou explorar problemas da administração estadual e nacionalizar a disputa ao relacionar Tarcísio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Como são conhecidos pela formação técnica e o pouco traquejo político, Tarcísio e Haddad fizeram dois debates na televisão nesse 1° turno marcados por uma enxurrada de números e discussões tecnicistas que não repercutiram no público da forma como as campanhas gostariam. A Segurança Pública esteve entre os principais temas. A campanha de Haddad passou a questionar a atuação do governo estadual diante da presença de facções criminosas e a fazer críticas a relações políticas de aliados de Tarcísio com pessoas suspeitas de ligação com o PCC. Debate SP - Fernando Haddad pergunta para Tarcísio de Freitas sobre segurança O tema chegou ao último debate, realizado pela TV Globo na terça-feira (29). Haddad falou sobre a entrada do Comando Vermelho no interior e acusou o PCC de se infiltrar em instituições públicas e privadas. Tarcísio rebateu citando a redução de indicadores criminais durante sua gestão e atacou relações de políticos ligados ao PT com pessoas investigadas. A disputa também foi nacionalizada. Haddad associou Tarcísio ao governo Bolsonaro e criticou a condução da pandemia durante a gestão do ex-presidente. Tarcísio, por outro lado, levou para o debate críticas ao governo Lula e à atuação de Haddad como ministro da Fazenda. Sabesp vira um dos principais símbolos da disputa O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, em evento de campanha em São Paulo. Diogo Zacarias/Divulgação A privatização da Sabesp foi outro dos principais temas da campanha. Haddad fez da empresa uma das principais bandeiras de sua candidatura e criticou a privatização realizada durante o governo Tarcísio. O petista falou sobre tarifas, abastecimento e episódios recentes envolvendo a prestação do serviço e defendeu rever a privatização. Tarcísio passou a defender os resultados da empresa e argumentou que a privatização aumentou a capacidade de investimento. No último debate, Haddad citou problemas recentes de abastecimento e uma orientação da Sabesp relacionada ao consumo de água na Baixada Santista. Tarcísio rebateu dizendo que não havia problema de potabilidade e que a situação estava relacionada à turbidez provocada pelas chuvas. A privatização da companhia também apareceu como um dos pontos de contraste entre os dois projetos. Na televisão, Haddad prometeu rever privatizações realizadas durante a atual gestão, enquanto Tarcísio concentrou sua propaganda nos resultados e nas entregas de seu governo. Saúde e educação também foram alvo de ataques Debate SP - Tarcísio de Freitas pergunta para Fernando Haddad sobre saúde A saúde foi outro tema recorrente. Haddad criticou filas e problemas no atendimento e apresentou propostas para ampliar a oferta de serviços. Tarcísio respondeu destacando medidas adotadas durante sua gestão, como investimentos em saúde digital e telemedicina. No debate final, Haddad também atacou o governo estadual pela situação de crianças atípicas nas escolas. Tarcísio rebateu destacando resultados da política educacional e o chamado selo ouro concedido pelo Ministério da Educação a São Paulo. Educação, transporte e infraestrutura completaram a lista de temas estaduais discutidos pelos dois. A campanha de Haddad também explorou concessões e privatizações de serviços públicos, enquanto Tarcísio apresentou obras e investimentos como marcas de sua administração. Flávio e Lula em SP Tarcísio e Flávio Bolsonaro (PL), e Fernando Haddad e Lula (PT). Montagem/g1/Divulgação Com a provável vitória de Tarcísio de Freitas (Republicanos) no 1° turno, os especialistas divergem sobre quais as chances de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mobilizarem massivamente suas militâncias no estado, a ponto de mexer significativamente com a disputa presidencial por São Paulo. “O fim da disputa no primeiro turno pode ser o que o velho Vicente Mateus chamava de ‘uma faca de dois legumes’. O esvaziamento, a ausência de campanha de governador pode desmobilizar prefeitos e deixar com que os candidatos nacionais tenham mais trabalho para fazer campanha”, disse o professor Marco Antonio Carvalho, da FGV. “Isso pode prejudicar os dois presidenciáveis. Obviamente que o Lula já sai em posição de desvantagem quando comparado ao Flávio, porque o Tacísio puxa a votação do Flávio pra cima. Agora, o Flávio parece que também não tem muito a crescer, porque deve perder aqui na capital e na região metropolitana e o reduto dele no interior é um lugar que o PT pouco penetra. Então, eu não vejo muita mexida no cenário [de 2° turno]”, afirmou. Para o analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) - Beto Vasques - o fim da corrida eleitoral estadual no 1° turno deixa Tarcísio de Freitas livre para fazer campanha para Flávio no estado, mas que não significa eficácia na estratégia. “Obviamente que o encerramento da campanha no primeiro turno terá reflexos na eleição presidencial. Existe aqui um paradoxo que divide os analistas: alguns acreditam que uma vitória de Tarcísio de Freitas no 1° turno poderia ser uma vantagem para o senador Flávio Bolsonaro, porque o seu correlegionário estaria eleito, teria um grande apelo popular. E, com isso, estaria liberado para fazer campanha para o Flávio. E o candidato do PL poderia dizer que tem ao seu lado o governador reeleito no primeiro turno”, disse. Por outro lado, uma reeleição em 1° turno representa a desmobilização da máquina eleitoral em várias regiões do estado, segundo Vasques. “A gente vê, historicamente, como os candidatos a deputados têm um papel primordial no processo eleitoral. Então, normalmente, do primeiro para o segundo turno, aumenta a abstenção, porque os candidatos a deputados que estão mobilizando os eleitores nos bairros, com o final do primeiro turno, desarmam suas estruturas de campanha. Com isso, deixam de mobilizar parte do eleitorado, que, não sendo incentivado pelas dinâmicas das candidaturas proporcionais, acabam ficando menos estimulados para comparecer a votar”, avalia. Os cientistas políticos Beto Vasques (FESPSP), Antonio Lavareda e Marco Antonio Carvalho (FGV). Reprodução/Redes Sociais