Tecidos sintéticos têm sido evitados por consumidores preocupados com saúde
O medo dos microplásticos, pensado da perspectiva da cultura do bem-estar, vem redesenhando o guarda-roupa e testa o limite de uma indústria que ainda não sabe viver sem tecidos sintéticos. A preocupação com os efeitos dos tecidos sobre a saúde, no entanto, parece ser mais baseada em uma tendência de comportamento do que em evidências científicas conclusivas.
A rejeição aos tecidos sintéticos
Ler a etiqueta de composição virou um gesto tão comum quanto olhar o prazo de validade de um alimento. Nylon, acrílico e , que por quase um século foram sinônimo de praticidade, hoje carregam uma péssima fama.
Segundo o New York Times, essa rejeição vem principalmente da cultura do bem-estar. A mesma lógica que já mudou o modo como as pessoas pensam sobre comida, fitness e skincare agora chega às roupas. A desconfiança com o poliéster em si não é nova: nos anos 1970 e 1980 o tecido passou a ser associado a peças baratas.
O principal receio atual vem da preocupação com a saúde, em razão da exposição aos microplásticos — partículas minúsculas que cientistas já encontraram em corpos humanos e que podem se soltar das roupas sintéticas com o movimento e com as lavagens. Pesquisas preliminares associam essas partículas a condições como doenças cardiovasculares.
Não há ainda, todavia, comprovação de uma relação causal direta entre microplásticos e doenças. Alguns estudos apontam a ingestão de comida e bebida como principal via de absorção dessas partículas, e a ciência ainda não estabeleceu se, e como, esses plásticos entram no organismo pela pele.
O poliéster, é impossível negar, gera microplásticos. O material responde por 59% de toda a fibra têxtil produzida no mundo. Somando todos os sintéticos, a fatia chega a 69%, segundo a Textile Exchange. Só cerca de 12% do poliéster vem de material reciclado.
Saúde vira status
Para a Business of Fashion, a fuga do poliéster tem mais de uma causa. Preocupações com saúde, o calor mais intenso e o excesso de roupas baratas de poliéster levaram consumidores de várias gerações às fibras naturais.
Também entra a distinção social. Fibras como algodão, lã ou cashmere são mais caras e as diferenças entre eles são notáveis. Isso pesa num momento em que redes de fast fashion lançam milhares de itens por dia, quase todos sintéticos, para manter o custo baixo.
As marcas perceberam. Rótulos como “clean” e “não tóxico” não têm definição padronizada, e funcionam como a categorização “sustentável” funcionava há uma década. A Reformation passou a destacar a composição de suas peças para atrair quem busca um “vestir mais saudável”. A analista Helen Palmer, da WGSN, resume o raciocínio. O discurso de salvar o planeta já não conquista como antes, e é preciso associar à compra um benefício direto para o consumidor.
A dificuldade de banir o poliéster
Marcas de design autoral usam poliéster há décadas pela maleabilidade e versatilidade do material. Suas características técnicas permitem desenvolver peças com formas esculturais e alto desempenho, resultados que nem sempre são facilmente alcançados com fibras naturais.
Um sintético bem desenvolvido entrega caimento, pela transparência e pela estrutura, características que dificilmente poderão ser alcançadas por outros meios, o que revela a dificuldade em substituir completamente a fibra não só nas fast fashions, mas também nas grandes grifes.
O dilema
O medo dos microplásticos já mudou o discurso de marcas, de políticos e de consumidores, mas o poliéster segue sendo a fibra mais produzida do mundo e segue entranhado do fast fashion à moda de luxo. A ciência ainda tenta responder se vestir sintético faz mal. O mercado, por sua vez, já aprendeu a vender a resposta que o consumidor quer ouvir, ainda que não seja inteiramente verdade.
Uma trabalhadora produz um lote de filme de poliéster destinado à exportação
Um saco contendo 200 kg de poliéster
manifestante ambiental, segura cartazes pedindo a proibição do uso de plásticos e ações concretas, em vez de discursos, para enfrentar a emergência climática