TSE decide sobre posts de Nossa Senhora: após votos divergentes, Mendonça ajusta decisão para liberar publicação de Antonio Tabet

30 de Set de 2026 - 22:30
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TSE decide sobre posts de Nossa Senhora: após votos divergentes, Mendonça ajusta decisão para liberar publicação de Antonio Tabet
    • Author, Mariana Schreiber
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Published 30 setembro 2026Atualizado Há 1 hora
  • Tempo de leitura: 9 min

A quatro dias da eleição, o (TSE) analisa, nesta quarta-feira (30/9), o pedido da campanha presidencial do senador (PL) para que sejam removidas publicações que o associavam a um .

A Corte está julgando, em plenário virtual, se confirma ou não a decisão do ministro que determinou a exclusão ampla de conteúdos relacionados a esse tema na sexta-feira (25/9).

Na visão de Mendonça, que é vice-presidente do TSE e também ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), não há evidências de que Flávio Bolsonaro pretenda alterar o título da padroeira, caso eleito, o que torna essas publicações falsas.

Por enquanto, dois ministros acompanharam a posição original de Mendonça: o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e Dias Toffoli. Ambos também integram o STF.

Mendonça, porém, ajustou depois seu voto durante o julgamento, convergindo em parte com a manifestação divergente do ministro Ricardo Villas Bôas Cueva para liberar o post do humorista Antonio Tabet que havia sido excluído por sua decisão.

A publicação de Tabet dizia: "A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!".

Ao alterar o voto, Mendonça considerou que há "ambiguidade" na postagem.

"O ajuste limita-se à publicação específica de Antonio Tabet. Diante da razoabilidade da compreensão de ambiguidade de seu conteúdo, entendo que a solução mais consentânea com os critérios de intervenção mínima e de proteção reforçada da liberdade de expressão consiste em preservar a postagem", disse Mendonça.

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Ele disse, porém, que esse ajuste não alterava o restante do seu voto e reforçou o "reconhecimento de que são objetivamente falsas as afirmações, apresentadas como fatos já ocorridos ou em curso, segundo as quais Flávio Bolsonaro teria sido autor, apresentado, proposto, apoiado ou articulado concretamente iniciativa destinada à retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil".

Tanto Ricardo Cueva como o ministro Floriano de Azevedo Marques votaram por restrições mais brandas às postagens relacionadas ao titulo de padroeira nacional da Santa e defenderam a liberação da publicação de Tabet.

Eles consideraram que publicações que indiquem objetivamente que Flávio seria autor de um projeto de lei para alterar o título de padroeira do Brasil são falsas e devem ser proibidas. Por outro lado, avaliaram como legais outros conteúdos que abordem o tema, sem imputar diretamente ao candidato ações concretas para alterar o título de Nossa Senhora.

Na visão de Cueva, inclusive, mensagens que expressem temor de que Flávio Bolsonaro tome alguma medida nesse sentido, caso eleito, não devem ser automaticamente consideradas falsas e proibidas de circular.

Ainda faltam votar dois ministros: Sebastião Reis Junior e Estela Aranha. Eles podem se manifestar até 23h59 desta quarta-feira.

O julgamento virtual no TSE foi marcado após uma nova batalha de decisões entre ministros do STF. No domingo, o ministro proferiu uma liminar derrubando a decisão de Mendonça e determinando que as publicações excluídas fossem novamente liberadas.

A decisão de Dino ocorreu após recurso apresentado pelo humorista Antonio Tabet, dentro de uma outra ação que já tramitava no seu gabinete no STF e tratava da retirada, pela Justiça Eleitoral do Paraná, de um vídeo sobre a inelegibilidade de Deltan Dallagnol.

Já o ministro Luiz Fux proferiu uma terceira decisão, na noite de segunda-feira (28/9), dessa vez derrubando a de Dino e restabelecendo a de Mendonça, após Flávio Bolsonaro apresentar um recurso em outra ação que trata do Marco Civil da Internet.

Dino e Fux solicitaram que o presidente do STF, , marcasse uma sessão para o plenário do STF decidir a controvérsia, mas isso ainda não foi feito.

Já no TSE, .

Enquanto o julgamento se iniciava, Dino teve uma nova iniciativa. Ele determinou que a Polícia Federal investigue uma "aparente onda de ataques nos últimos meses contra imagens religiosas".

Em sua decisão, ele diz ter recebido relatos e notícias sobre atos de vandalismo contra locais religiosos. Um deles, que lhe foi encaminhado pelo ministro Gilmar Mendes, teria ocorrido na Cruz do Chilão, ponto de celebração religiosa em Cuiabá (MT), onde uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada sem a cabeça.

Outro caso refere-se a um ataque à Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, em Salvador, em que a imagem de uma santa teria sido quebrada.

A decisão lista ainda outros supostos ataques a centros católicos ou de religiões de matriz afro-brasileiras, em estados como Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Minas Gerais e Alagoas.

"Assim, temos um quadro bastante grave, em que existem indícios de crimes variados, tais como: ultraje a culto, na modalidade vilipêndio; preconceito religioso; violência contra práticas religiosas; injúria qualificada por elemento religioso; ameaça, furto, dano, incêndio e violação de domicílio", argumentou Dino.

Horas depois, o jornal Folha de S. Paulo publicou que a defesa de Flávio Bolsonaro pediu a Edson Fachin que Dino seja considerado suspeito em processos relativos às eleições presidenciais, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — que busca a reeleição — e ao próprio senador.

Os advogados de Flávio apontaram para a proximidade entre Lula e Dino.

"Essa relação precede a toga e a ela, infelizmente, sobreviveu, de forma que compromete a imparcialidade de Sua Excelência para julgar causas que envolvam o Presidente da República e, consequentemente, as eleições presidenciais de 2026 e o Peticionário, principal adversário do atual Presidente na disputa", disse a defesa de Flávio, segundo o jornal.

Entenda a seguir o vai e vem das decisões dos últimos dias.

O que Fux decidiu

Na noite da segunda-feira (28/8), Fux suspendeu a decisão de Dino que havia liberado publicações nas redes relacionadas à controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida.

Fux determinou que as plataformas digitais restabelecessem, em até 24 horas, o cumprimento das ordens do TSE para excluir conteúdos que afirmassem que Flávio ou a família Bolsonaro pretendem retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.

As empresas também foram obrigadas a informar à Justiça o que foi feito, sob pena de multa de R$ 50 mil por dia, por provedor, e eventual responsabilização por desobediência.

A decisão foi provisória. O ministro não decidiu definitivamente se os conteúdos são ou não protegidos pela liberdade de expressão nem se a ordem original do TSE foi correta.

Fux suspendeu os efeitos da decisão de Dino até que o plenário do STF analise a questão.

De onde veio a polêmica

A controvérsia começou nas redes na noite da última quarta-feira (23/9). A partir do dia seguinte, passou a circular a alegação de que Flávio teria intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Não existe, porém, um projeto apresentado por Flávio com esse objetivo.

O texto no centro da história é o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado federal Victório Galli, de Mato Grosso, hoje filiado ao Progressistas.

A Câmara dos Deputados informa que a proposta está arquivada. Seu objetivo era alterar a Lei nº 6.802, de 1980, para substituir a expressão "padroeira do Brasil" por "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos".

A tramitação terminou em 2008. Segundo a Câmara, o projeto foi arquivado naquele ano. Foi esse projeto que acabou associado a Flávio na internet.

A lei brasileira declara 12 de outubro como feriado nacional consagrado a Nossa Senhora Aparecida.

A discussão ganhou força depois de um comentário feito por uma jornalista da GloboNews ao vivo sobre um suposto movimento envolvendo setores religiosos e uma proposta para alterar o status de Nossa Senhora Aparecida.

Trechos de sua fala passaram a circular fora de contexto e foram usados para associar o projeto a Flávio, embora a fala original não atribuísse a iniciativa ao candidato.

A GloboNews divulgou uma correção, informando que o projeto citado era antigo, havia sido apresentado por outro parlamentar e estava arquivado desde 2008.

Flávio também negou a associação, afirmou que não existia nenhum projeto nesse sentido e classificou a informação como falsa.

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As decisões anteriores, de André Mendonça e de Flávio Dino

Na sexta-feira (25/9), a campanha de Flávio levou o assunto ao TSE. Vice-presidente do tribunal, Mendonça determinou em caráter liminar a remoção de publicações relacionadas à alegação de que Flávio ou sua família pretendessem retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira.

Mendonça justificou a medida com a proximidade das eleições e com o potencial de influência do conteúdo sobre a formação da vontade do eleitor.

A decisão também alcançou a publicação de Antonio Tabet, um dos fundadores do canal Porta dos Fundos.

No domingo (27/9), Dino suspendeu a decisão de Mendonça e determinou o restabelecimento da publicação de Tabet.

Ele também estendeu os efeitos de sua decisão a outros conteúdos que haviam sido removidos com base no mesmo fundamento.

Dino entendeu que a publicação não apresentava elementos suficientes para justificar uma restrição à liberdade de expressão e destacou que Tabet não mencionava diretamente o candidato.

O ministro também citou a liberdade religiosa. Em sua avaliação, uma restrição ampla poderia produzir um efeito sobre manifestações de pessoas que utilizam a imagem ou a devoção a Nossa Senhora Aparecida no debate público.

O caso chegou a Dino por iniciativa do humorista. A defesa de Tabet pediu ao STF que Dino estendesse ao caso uma decisão anterior do ministro, tomada em outro processo que já estava sob sua relatoria.

Essa decisão anterior tratava da retirada, pela Justiça Eleitoral do Paraná, de um vídeo sobre a situação eleitoral de Deltan Dallagnol. Dino havia considerado a medida uma restrição indevida à liberdade de expressão.

Após a decisão de Dino, a defesa de Flávio recorreu ao STF e escolheu apresentar o pedido em um processo sobre o Marco Civil da Internet que tem a relatoria de Fux.

A defesa também argumentou que conteúdos falsos durante uma campanha presidencial podem alcançar milhões de pessoas antes que uma eventual correção judicial produza efeito. Fux então suspendeu os efeitos da decisão de Dino.

Kassio e evangélicos reclamam

Diante do vaivém de liminares, o ministro Kassio Nunes Marques reclamou a Fachin de "indevida sobreposição de competência" do STF sobre o TSE, apurou a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.

"Venho manifestar minha elevada preocupação com episódios reiterados de indevida sobreposição de competência e de violação ao juiz natural no âmbito do Supremo Tribunal Federal que vêm impactando diretamente a condução da eleição pelo Tribunal Superior Eleitoral", disse.

"O resultado é o risco de captura institucional, compreendida como a subordinação funcional do TSE a juízos individuais externos à estrutura da Justiça Eleitoral", acrescentou.

"É por essa via incremental formalmente lícita, mas materialmente desestruturante, que se opera a erosão democrática, mediante o progressivo enfraquecimento das instituições incumbidas de assegurar a integridade do pleito."

O Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb), que reúne mais de 10 mil pastores de diferentes denominações, também se manifestou sobre o caso, em nota de repúdio enviada à imprensa.

"O Cimeb repudia com veemência a utilização de uma fake news por Lula e seus seguidores para atingir um adversário político e, o mais grave, promover uma guerra religiosa entre católicos e evangélicos."

A nota é assinada pelos pastores Silas Malafaia, César Augusto, Robson Rodovalho, Estevam Hernandes, Samuel Câmara, Galdino Júnior, Jabes de Alencar, Teó Hayashi, Claudio Duarte, Luiz Hermínio, Ezequiel Teixeira, Paulo Roberto, Marcus Gregório e Simonton Araújo.

O documento também afirma que "evangélicos e católicos vivem em paz" e nega a existência de iniciativas de líderes evangélicos para promover o cancelamento de feriados ou cultos de qualquer religião.