Vitória de Lula provoca disparada do dólar e trava a Bolsa; veja as cotações

26 de Out de 2026 - 10:40
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Vitória de Lula provoca disparada do dólar e trava a Bolsa; veja as cotações

A Bolsa brasileira (B3) acionou o circuit breaker e paralisou as negociações por 30 minutos logo na abertura, na manhã desta segunda-feira (26). É a primeira vez que o mecanismo é acionado desde março de 2020, quando a turbulência provocada pelo início da pandemia levou a uma série de interrupções no mercado brasileiro.

Para Roberta Folgueral, diretora comercial de câmbio e operações da B&T XP, o mecanismo pode voltar a ser acionado ao longo do dia. Ela avalia que o mercado deve piorar sua reação, sem um sinal de recuperação nos indicadores ao menos até o final deste primeiro pregão.

A reação negativa também aparece no câmbio, em meio a preocupações dos investidores com a política fiscal após a vitória do presidente Lula (PT) no segundo turno. O dólar abriu em alta de 8,65%, a R$ 5,42, ante o fechamento de R$ 4,99 na sexta-feira (23). Menos de uma hora depois da abertura, já chegou ao patamar de R$ 5,60.

O movimento é oposto ao registrado após o primeiro turno. Na ocasião, quando Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, o dólar caiu 4,12% no primeiro pregão após a votação e fechou a R$ 5,00.

Entenda o mecanismo que interrompe o mercado financeiro no Brasil

O circuit breaker é acionado quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior, interrompendo os negócios por 30 minutos. Se, após a retomada, a perda alcançar 15%, a Bolsa para novamente por uma hora. Aos 20%, a B3 pode determinar uma nova suspensão e definir o período da paralisação.

O Ibovespa, por sua vez, é o principal índice da Bolsa brasileira e acompanha o desempenho de uma carteira formada pelas ações mais representativas negociadas na B3. Quando o índice sobe, significa que essa cesta de empresas se valorizou, em média; quando cai, indica perda de valor. Agora, com a queda desta carteira representativa, todo o mercado abrangido pela B3 para de funcionar.

O último circuit breaker da Bolsa brasileira havia ocorrido em 18 de março de 2020. Naquele mês, o mecanismo foi acionado seis vezes no país. A interrupção das negociações não ficou restrita ao Brasil: Estados Unidos e Canadá também acionaram circuit breakers durante a crise.

Investidores estrangeiros já reagiam com pessimismo antes da abertura

O mercado futuro já havia sinalizado antes da abertura a intensidade da pressão sobre as ações brasileiras. O contrato futuro do Ibovespa atingiu inicialmente o limite de queda de 15%. Diante da forte volatilidade, a B3 ampliou esse limite para 20% e, antes da abertura do mercado à vista, o índice futuro chegou a recuar 19,7%, aos 167 mil pontos.

No exterior, o EWZ, fundo negociado nos Estados Unidos que acompanha ações brasileiras, chegou a despencar cerca de 26% no pré-mercado após a vitória de Lula. O movimento também contrasta com a reação ao primeiro turno, quando o fundo subiu cerca de 12,5% após a liderança de Flávio.

As ações de empresas brasileiras negociadas no exterior também sofrem. As ADRs do Itaú chegaram a cair mais de 26%, para pouco mais de US$ 7, no pré-mercado. As da Petrobras recuaram mais de 20%, para a faixa de US$ 20.

Análises

Analistas veem uma reversão das apostas de que o próximo governo traria um perfil de controle fiscal. Com isso, projetam uma manutenção dos juros altos por mais tempo caso Lula não sinalize que pode mudar de postura no próximo mandato.

A explicação vem da aposta no risco em investir no país. Os analistas apontam que a maior incerteza fiscal leva a uma exigência por remunerações maiores a quem decide aplicar seu dinheiro em ativos brasileiros.

Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a reação representa uma reversão do chamado “trade eleitoral” formado depois do primeiro turno. Na ocasião, a liderança de Flávio Bolsonaro alimentou entre investidores a expectativa de uma política econômica mais favorável ao mercado e de maior compromisso com o equilíbrio fiscal.

“Com isso, aquele trade eleitoral perde força. Estamos vendo uma queda expressiva das ações brasileiras e uma alta considerável do dólar”, afirmou.

Segundo Alves, a reação pode alcançar também a curva de juros, enquanto investidores passam a observar principalmente a condução das contas públicas no próximo governo. “A situação fiscal é central para a percepção de risco de um país e para a trajetória de sua moeda”, disse.