Do 'risco-Flávio' à campanha de mobilização: 4 trunfos usados por Lula para virar o jogo no 2º turno

26 de Out de 2026 - 11:00
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Do 'risco-Flávio' à campanha de mobilização: 4 trunfos usados por Lula para virar o jogo no 2º turno
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou um feito inédito no Brasil ao vencer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) neste domingo (25/10): além de conquistar o quarto mandato, .

O presidente-eleito conquistou 51,79% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,21% do senador pelo PL do Rio.

Lula havia ficado em segundo lugar no primeiro turno por uma diferença de 1,8%, ou 2,2 milhões de votos.

A vitória histórica de Lula, segundo analistas, foi resultado de uma combinação de quatro fatores:

  • Queda da abstenção
  • Reorganização da campanha online
  • Mobilização de eleitores nas ruas
  • Erros estratégicos da candidatura de Flávio

Confira, a seguir, como e porque cada um destes pontos impulsionou Lula rumo à vitória.

Queda histórica na abstenção

O cientista político Rodrigo Mahlmeister, pesquisador na Duke University, nos Estados Unidos, chama atenção para a redução da abstenção: o índice caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, uma redução de 1,86 ponto percentual.

O movimento superou o observado em 2022, quando a taxa recuou cerca de 0,4 ponto entre as duas etapas da eleição presidencial.

Bahia, Pernambuco e São Paulo foram os Estados em que o comparecimento nas urnas mais cresceu. Na Bahia, a redução da abstenção foi de 3,26%.

Confira a apuração para presidente e governador em seu Estado e município no mapa interativo da BBC News Brasil

Fim da Promoção Resultados eleição 2026

Já os Estados que tiveram o movimento contrário, com aumento de abstenção, foram Amapá, Roraima e Acre.

O pesquisador afirma que a dimensão da mobilização surpreendeu até mesmo quem já considerava possível uma redução nos índices de abstenção — e a convocação de idosos ajudou.

"Muitas pessoas com mais de 70 anos não votaram porque a lei não exige que votem", disse Lula na avenida Paulista, em 11 de outubro. "Temos que conversar com as pessoas que têm entre 60 e 70 anos e acham que não precisam votar. Ter 60 ou 70 anos não transforma a pessoa em inútil. Se a pessoa não quer votar por ela, tem que ir pelo filho, neto, bisneto e pela pátria para cuidar."

Mahlmeister diz que "no final das contas, a campanha do Lula foi muito bem-sucedida em uma aposta que era incerta. O PT realmente insistiu nessa campanha de mobilização, especialmente dos mais velhos, mobilizando gente que não votava há muito tempo".

Para ele, a capacidade de reduzir a abstenção foi um fator que as pesquisas de intenção de voto não conseguiram captar.

Segundo ele, mesmo os institutos que fazem ajustes para estimar quem efetivamente compareceria às urnas não consideraram que a queda pudesse ser tão expressiva.

Para a cientista política Denilde Holzhacker, professora da ESPM, a diminuição da abstenção também refletiu a percepção, entre eleitores dos dois campos políticos, de que a eleição era decisiva.

"Quando a eleição está muito acirrada e o eleitor percebe que a participação vai ser importante, ela tende a gerar mais engajamento", afirma.

Reorganização da campanha online

Após a derrota no primeiro turno para Flávio Bolsonaro, a campanha do PT adotou uma estratégia mais intensa de mobilização digital e uma comunicação mais diretamente ligada às preocupações cotidianas dos eleitores.

Lula deixou a formalidade de lado e passou a fazer "selfies" em vídeo, falando diretamente para a câmera e para seus eleitores.

No que tange ao discurso, a campanha deixou de priorizar a defesa dos feitos do governo Lula, segundo Holzhacker, e passou a enfatizar eventuais riscos que uma vitória de Flávio poderia representar para direitos e políticas sociais.

"A comunicação foi muito mais efetiva nesse segundo turno", diz a professora.

Em paralelo, a participação intensa do deputado André Janones (Rede-MG) e seu "Exército do Lula" no WhatsApp teria "educado" a militância petista sobre ativismo digital.

As "missões" de Janones para disseminar o conteúdo de campanha também foram grandes trunfos do petista.

"Foi um mérito do candidato: reconhecer que tinha uma fragilidade e mudar completamente o estilo. E Janones conseguir fazer algo impensável para a esquerda, que é dominar as redes sociais", afirma.

Para Holzhacker, o grupo conseguiu explorar mecanismos de engajamento digital que a esquerda historicamente tinha dificuldade de ocupar.

"O grupo tinha um modelo de ordens e missões que criou uma lógica que é muito comum em 'gameficações'. Ou seja, cada etapa tem algo que precisa que ser superado. Isso engaja principalmente os jovens", diz a professora.

Ao combinar a defesa do legado de Lula com a tentativa de desconstruir a candidatura adversária, a campanha teria se energizado e foi capaz de mobilizar eleitores para além da base tradicional do PT.

Da internet às ruas

A estratégia petista, no entanto, não se limitou à viralização de conteúdos nas redes sociais.

O diferencial, na avaliação de Holzhacker, foi conectar essas atividades do grupo do WhatsApp com as ruas.

"Eram missões que tinham impacto no cotidiano e no presencial, então conectou a lógica das redes com grandes mobilizações", afirma.

O resultado foi a explosão de atos e protestos coordenados em diferentes partes do país, gerando fotos e vídeos de multidões expressando apoio a Lula.

"Uma grande questão que sempre existe sobre a mobilização digital é se ela fica restrita ao âmbito digital", diz. "Ele conseguiu transportar do digital para o presencial."

A avaliação ajuda a explicar por que a campanha não se resumiu à disputa por visibilidade nas plataformas. O desafio era converter o engajamento em participação política concreta, seja pela mobilização de apoiadores, seja pelo convencimento de eleitores ainda indecisos.

A socióloga e cientista política Mayra Goulart, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também afirma que a virada de Lula não se limitou à atuação das redes.

"Foi combinação de redes e ruas", afirma. "O mundo físico permitiu uma mobilização capaz de reduzir a abstenção e reduzir os indecisos. Ou seja, aqueles que estavam comprometidos com a vitória do presidente Lula se movimentaram para levar pessoas e convencer pessoas."

"Eu acho que é esse esforço coletivo que foi um aprendizado e que vai ser útil para um governo que vai ter muitas batalhas pela frente, que permitiu não só a redução da abstenção, como a conversão de muitos indecisos."

Medo do bolsonarismo e o 'risco-Flávio'

O receio de um novo governo associado ao bolsonarismo também foi um dos elementos centrais explorados pela campanha do petista, segundo Denilde Holzhacker. A campanha procurou vincular a candidatura de Flávio à possibilidade de mudanças em políticas sociais e de perda de direitos.

Para a professora, esse discurso ganhou força ao ser associado a exemplos internacionais, especialmente ao governo de Javier Milei, na Argentina.

A comparação permitiu à campanha questionar se o alinhamento com a direita internacional e com os Estados Unidos produziria melhorias concretas nas condições de vida.

Holzhacker afirma que a candidatura de Lula explorou a ideia de que as promessas feitas por governos de direita na região nem sempre se traduziram em crescimento econômico ou melhora das condições sociais.

"Eu acho que o grande ponto foi o medo do bolsonarismo, da volta do bolsonarismo no Brasil", afirma.

Mahlmeister nota que, embora as pesquisas não tivessem acertado o resultado final da eleição, essa tendência foi expressa nos levantamentos.

A cinco dias da eleição, uma pesquisa da Quaest mostrava que 44% dos eleitores tinham medo da volta da família Bolsonaro ao poder com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, enquanto 42% temiam a reeleição do presidente Lula.

Na véspera da eleição, o instituto também trazia um dado que exemplifica essa tendência: o senador tinha rejeição de 49%, e Lula, de 47%.

Erros estratégicos de Flávio

Denilde Holzhacker faz uma ressalva: a vitória de Lula também teria se beneficiado de erros cometidos pelo adversário.

Para a professora da ESPM, um dos principais erros da campanha de Flávio foi a confiança exacerbada, que teria levado o candidato a subestimar a capacidade de reação de Lula.

"O primeiro erro foi sair do primeiro turno com a sensação de que já tinha levado o resultado, de que já iria ganhar", afirma.

A professora aponta ainda dificuldades para explicar as propostas econômicas e seus possíveis efeitos sobre os benefícios sociais e os direitos dos eleitores. A discussão sobre o "tesouraço" (cortes em gastos do governo), aposentadorias e programas sociais abriu espaço para que a campanha petista questionasse as consequências de um eventual governo de Flávio.

Ao precisar voltar repetidamente ao tema para assegurar que benefícios seriam mantidos, Flávio teria alimentado a desconfiança de parte do eleitorado.

"A cada vez que ele tinha que dizer que não, que ia manter, acho que aprofundava a desconfiança", diz Holzhacker.

Ela também cita o primeiro debate do segundo turno como um momento negativo para o candidato do PL. Na avaliação da professora, a postura de Flávio e a estratégia adotada no confronto tornaram mais visíveis pontos que a campanha de Lula passou a explorar.

Outro problema teria sido a dificuldade de manter o ritmo de mobilização. Enquanto Lula intensificou sua campanha, Holzhacker avalia que o adversário não conseguiu sustentar o mesmo nível de engajamento em diferentes cidades e Estados.