Vizinhos isolam Lula no debate sobre crime organizado na ONU
Assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem ficado cada vez mais isolado politicamente nas Américas com as vitórias da direita em eleições em outros países, o petista ficou em minoria nos debates sobre o combate ao crime organizado no continente durante a Assembleia Geral da ONU, na qual os discursos de líderes de Estado e governo começaram nesta terça-feira (22) em Nova York.
No seu pronunciamento, Lula refutou ações militares dos Estados Unidos contra grupos criminosos no Brasil e enviou recados ao presidente americano, Donald Trump.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos”, disse o mandatário brasileiro, que em seguida argumentou que o Brasil está fazendo sua parte no enfrentamento a esses grupos.
“Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil. Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo”, afirmou Lula.
Porém, nos discursos que vieram a seguir, Trump e outros líderes de governo do continente enfatizaram a necessidade de enfrentamento militar integrado contra o crime organizado por meio de iniciativas como o Escudo das Américas, criado pelo republicano e do qual o Brasil não faz parte.
No seu pronunciamento, Trump citou como exemplo a captura em janeiro do então ditador venezuelano Nicolás Maduro, acusado pelos Estados Unidos de narcoterrorismo.
“Todos vocês ouviram que nossas ações na Venezuela são a prova de que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças à América ganhem terreno em qualquer parte do Hemisfério Ocidental. E, se necessário, usaremos nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos”, disse Trump.
“Ao assumir o cargo, designei os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e acionei as Forças Armadas dos Estados Unidos para eliminá-los. Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental”, afirmou o republicano. “Assim como o Estado Islâmico, eles devem ser mortos, banidos ou detidos como combatentes inimigos, sem possibilidade de libertação — que é exatamente o que estamos fazendo.”
A nova presidente do Peru, a conservadora Keiko Fujimori, disse no seu discurso na ONU que o combate ao crime organizado nas Américas não pode ser feito de forma isolada.
“Enfrentar esta guerra como um problema isolado, a ser resolvido por cada nação individualmente, não é apenas um raciocínio equivocado e um erro que temos cometido. É, na verdade, dar vantagem ao crime organizado transnacional. Cometer esse erro permite que eles se fortaleçam”, disse a mandatária peruana.
José Antonio Kast, presidente do Chile, país que nesta terça-feira aderiu ao Escudo das Américas de Trump, também falou no seu discurso sobre a necessidade de parcerias no combate ao crime organizado e citou o Acordo de Santiago, iniciativa nesse sentido assinada este ano com Argentina, Peru, Equador e Bolívia.
“Muitas nações sul-americanas aderiram a ela para que possamos nos coordenar no combate eficaz ao crime organizado transnacional”, disse o presidente conservador.
No seu pronunciamento, Kamla Persad-Bissessar, primeira-ministra de Trinidad e Tobago, agradeceu a Trump por convidar o país caribenho para o Escudo das Américas e a Coalizão Americana de Combate aos Cartéis.
“Continuamos confiantes de que essa parceria seguirá promovendo a liberdade, a segurança e a prosperidade em nossa região”, afirmou Persad-Bissessar.
Países das Américas designam PCC e CV como terroristas
Paralelamente à Assembleia Geral da ONU, 14 países da América Latina e do Caribe, integrantes do Escudo das Américas, seguiram os Estados Unidos e anunciaram nesta terça-feira a designação de 24 organizações criminosas, incluindo as brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), como grupos terroristas e sanções contra elas: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
Alguns destes países, como Argentina e Paraguai, já consideravam PCC e CV grupos terroristas, medida que o governo Lula refuta.
Na semana passada, o governo Trump, em relatório ao Congresso americano, acusou o Brasil de ter “falhado em enfrentar” os dois grupos criminosos brasileiros.
Ao mesmo tempo, a gestão do republicano elogiou países latino-americanos governados pela direita, como Colômbia e Equador, por suas ações de enfrentamento ao crime organizado e destacou a parceria com os Estados Unidos nessas ações.