Amanhecer em Marte: Nasa revela cena rara capturada pelo robô Curiosity

20 de Out de 2026 - 15:40
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Amanhecer em Marte: Nasa revela cena rara capturada pelo robô Curiosity
  • Por Ana Paula Pickler

  • Especial para a Gazeta do Povo

  • 20/10/2026 às 14:46

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Uma paisagem marciana iluminada pela primeira luz do dia ganhou novos detalhes em uma imagem divulgada pela . O registro mostra o amanhecer em Marte sobre formações rochosas esculpidas pelo vento e foi feito pelo rover Curiosity durante sua exploração do Monte Sharp, uma montanha com cerca de 5 quilômetros de altura localizada dentro da cratera Gale.

A fotografia foi capturada em 11 de agosto de 2026, por volta das 8h30 no horário local de Marte, durante o 4.982º dia marciano da missão. O panorama é composto por seis imagens feitas pela câmera Mastcam e posteriormente unidas após o envio dos dados para a Terra.

Há um detalhe importante no tratamento da fotografia: ao contrário do que ocorre com boa parte dos registros feitos pela Mastcam, a imagem não recebeu o tradicional balanço de branco. A escolha permitiu preservar características de cor associadas à iluminação das primeiras horas da manhã marciana, incluindo tons azulados perceptíveis no primeiro plano.

Por que o amanhecer em Marte é diferente?

Embora o Sol seja a, a experiência de observá-lo a partir de Marte seria bastante diferente. O planeta está, em média, a cerca de 228 milhões de quilômetros do Sol, contra aproximadamente 150 milhões de quilômetros no caso da Terra. Por isso, Marte recebe menos luz solar e o disco do Sol também parece menor visto de sua superfície.

Segundo a NASA, o Sol visto de Marte aparenta ter aproximadamente dois terços do tamanho que apresenta no céu terrestre. Isso não significa que o nascer do Sol deixe de ser visível: a estrela continua iluminando a superfície e produzindo transições de luz e sombra, mas em uma intensidade menor.

A aparência do céu também muda por causa da atmosfera. Marte possui uma atmosfera muito mais fina que a terrestre, composta predominantemente por dióxido de carbono e carregada de partículas muito pequenas de poeira. É justamente essa poeira que interfere na maneira como a luz solar se espalha.

Durante o dia, o céu marciano tende a apresentar tons amarelados, alaranjados ou avermelhados, enquanto próximo ao Sol, durante o nascer ou o pôr, podem aparecer tonalidades azuladas, azul-acinzentadas e até violetas.

O fenômeno é praticamente o inverso do que ocorre na Terra, onde o céu diurno costuma ser azul e os nasceres e pores do Sol frequentemente assumem tons avermelhados.

Isso acontece porque as partículas finas presentes na atmosfera marciana espalham a luz de maneira diferente das moléculas predominantes na atmosfera terrestre. No caso de Marte, a luz azul consegue atravessar a poeira com maior eficiência e permanece mais concentrada na direção do Sol, enquanto os comprimentos de onda associados ao amarelo e ao vermelho se espalham por uma área maior do céu.

A poeira atmosférica também ajuda a explicar por que o crepúsculo marciano pode ser prolongado. A NASA já observou que o brilho do crepúsculo pode permanecer perceptível por até cerca de duas horas antes do nascer do Sol ou depois do pôr do Sol, porque partículas de poeira em grandes altitudes continuam espalhando a luz para o lado noturno do planeta.

Onde o Curiosity registrou a cena em Marte?

O rover estava no Monte Sharp, que fica no centro da cratera Gale. O Curiosity pousou em Marte em agosto de 2012 e começou a subir o Monte Sharp em 2014, investigando suas diferentes camadas geológicas.

A região fotografada agora chama atenção não apenas pela iluminação do amanhecer em Marte, mas pelas estruturas que aparecem no horizonte. São os chamados yardangs, formações alongadas e irregulares esculpidas pela ação do vento ao longo de períodos extremamente longos.

A camada desses paredões se estende por cerca de 16 quilômetros na região noroeste do Monte Sharp. Ela tem uma aparência diferente das demais camadas da montanha e é justamente essa característica que desperta o interesse dos pesquisadores.

Ashwin Vasavada, cientista responsável pelo projeto Curiosity no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, chamou atenção para o aspecto incomum da formação. Segundo ele, a camada parece deslocada em relação ao restante da montanha, tem uma coloração diferente e suas camadas apresentam uma inclinação peculiar.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que o material possa ter origem em cinzas depositadas por antigas erupções vulcânicas. Depois de se transformar em rocha, a ação do vento teria esculpido a camada ao longo de bilhões de anos, formando os yardangs.

O Monte Sharp funciona como uma espécie de registro geológico de diferentes períodos da história marciana.

As camadas analisadas pelo Curiosity já ajudaram os cientistas a reconstruir evidências de uma época em que a região abrigava lagos e cursos de água. Com o desaparecimento da água, minerais permaneceram na superfície e processos de erosão passaram a modificar a paisagem.

Quanto dura um dia e o amanhecer em Marte?

Um dia marciano dura cerca de 24 horas e 39 minutos — aproximadamente 39 minutos a mais que um dia terrestre. Essa diferença permite que o ciclo de iluminação de Marte seja relativamente familiar para um eventual observador humano, embora os horários exatos do nascer e do pôr do Sol variem conforme a localização e a época do ano.

Por isso, não existe uma única resposta para a pergunta sobre a que horas o Sol nasce em Marte. Assim como ocorre na Terra, o horário depende da posição geográfica do ponto observado e da estação marciana. No caso da imagem divulgada agora, o Curiosity registrou a paisagem às 8h30 do horário local de Marte, cerca de uma hora após o nascer do Sol.

O rover já havia observado outros fenômenos relacionados ao Sol. Em 2015, por exemplo, o Curiosity registrou seu primeiro pôr do Sol colorido, e outras missões também captaram nasceres e pores do Sol na superfície marciana. A sonda InSight, por exemplo, fotografou o Sol surgindo e desaparecendo no horizonte em 2022.

Portanto, a nova imagem não representa o primeiro nascer do Sol fotografado em Marte. O que torna o registro especial é a combinação entre a luz das primeiras horas do dia, o tratamento sem balanço de branco e a paisagem dos yardangs ao fundo.

Além do aspecto visual, imagens desse tipo têm utilidade científica. Observações do céu durante o amanhecer e o crepúsculo permitem estudar como a luz atravessa a atmosfera e ajudam pesquisadores a compreender a distribuição de poeira e de possíveis partículas de gelo em diferentes altitudes.

A expectativa da equipe é que o Curiosity se aproxime ainda mais dos yardangs ao longo da missão. A previsão da NASA é que o rover chegue à base dessas formações em 2027, quando poderá utilizar seus instrumentos e o braço robótico para investigar diretamente as rochas e tentar esclarecer como uma das paisagens mais intrigantes do Monte Sharp se formou.

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