Chuvas agravam déficit de trigo para panificação no Paraná
O excesso de chuvas durante a colheita e a ocorrência de doenças nas lavouras agravaram as perspectivas para a safra de trigo do Paraná e reduziram a oferta esperada de grãos de qualidade adequada à panificação. Segundo o Sinditrigo-PR (Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná), a estimativa inicial de déficit de 1,6 milhão de toneladas entre a produção estadual e o volume processado pelos moinhos subiu para cerca de 1,7 milhão de toneladas.
Em setembro, o Deral (Departamento de Economia Rural do Paraná) reduziu em 10% a estimativa de produção estadual, para 2,13 milhões de toneladas. Um novo levantamento, previsto para 29 de outubro, deve trazer uma avaliação atualizada da safra, com expectativa de nova redução na produção.
No boletim conjuntural divulgado em 15 de outubro, o Deral informou que a avaliação das lavouras pendentes de colheita voltou a piorar. Dos 182 mil hectares ainda por colher, 12% foram classificados como ruins, 42% como médios e 46% como bons. Na estimativa de setembro, quando ainda havia 392 mil hectares pendentes, os percentuais eram de 7%, 29% e 64%, respectivamente.
O órgão também apontou que as chuvas frequentes durante o avanço da colheita comprometeram a qualidade dos grãos, inclusive em lavouras com potencial produtivo médio e alto. A previsão meteorológica indicava a continuidade das precipitações no estado, o que poderia dificultar a conclusão dos trabalhos em condições adequadas.
O cenário ocorre em um estado que responde por cerca de 30% da produção nacional de farinha de trigo, com moagem de 3,85 milhões de toneladas por safra.
A presidente do Sinditrigo-PR, Paloma Venturelli, afirma que a disponibilidade de trigo adequado à panificação é uma das principais preocupações do setor. No Norte do Paraná, a produção estimada para esta safra é de aproximadamente 750 mil toneladas, das quais apenas 400 mil devem ser de trigo Tipo 1, utilizado na fabricação de produtos de panificação.
No ano passado, a região produziu cerca de 900 mil toneladas, a maior parte classificada como Tipo 1. Segundo Venturelli, os números das regiões de Guarapuava e dos Campos Gerais ainda estão em apuração e serão importantes para dimensionar a oferta estadual de trigo de melhor qualidade.
“Para uma indústria formada, em grande parte, por moinhos de panificação, esse volume de 400 mil toneladas é muito baixo”, afirmou.
Importações e custos para os moinhos
A indústria já projetava um déficit de abastecimento nesta safra em razão da redução da área plantada com trigo. Com a piora da qualidade e da produtividade, o setor prevê maior dependência de importações, principalmente da Argentina, para atender à demanda dos moinhos paranaenses.
“Veja que essa piora de um cenário que já era muito ruim é realmente alarmante. Um quadro como esse coloca o Paraná numa dependência muito grande de trigo importado e aumenta a pressão sobre as margens dos moinhos, que vão precisar repassar o aumento de custos aos preços da farinha”, disse Venturelli.
Além da disponibilidade do cereal no mercado internacional, o sindicato aponta desafios logísticos para receber o volume importado. A operação nos portos e o transporte do trigo até as diferentes regiões do Paraná, onde estão instalados os moinhos, exigirão atenção do setor.
O Deral informou que os preços do trigo subiram 5% em setembro, em reação à menor disponibilidade interna, e ficaram estáveis na primeira quinzena de outubro. Embora o câmbio e a queda das cotações internacionais exerçam pressão de baixa, a escassez de trigo de alta qualidade continua sustentando os preços no curto prazo.
Incentivo ao plantio
A preocupação do Sinditrigo-PR também envolve o próximo ciclo agrícola. Segundo a entidade, a combinação de perdas de qualidade, redução de produtividade e dificuldades enfrentadas pelos produtores pode desestimular novos plantios e ampliar a diminuição da área cultivada com trigo no estado.
O sindicato pretende levar ao próximo governo propostas para ampliar o espaço da cultura na política agrícola. Entre as medidas defendidas estão a criação de um Plano Safra específico para o trigo e de um programa de seguro rural que incentive o plantio e ajude a tornar a atividade economicamente viável para os produtores.
A entidade argumenta que políticas de incentivo à produção são importantes para reduzir a vulnerabilidade do abastecimento interno e a dependência do mercado externo.
“A gente precisa falar de segurança de abastecimento, porque é o pãozinho nosso de cada dia”, afirmou Venturelli.