Análise: Flávio Bolsonaro e Lula buscam vender “mudança” a eleitor
A quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais, as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificam seus esforços para conquistar eleitores indecisos e reduzir abstenções. Segundo a analista de Política da CNN Isabel Mega, ao Live CNN, um elemento comum passou a dominar a comunicação de ambos os lados: o conceito de mudança.
Segundo análise de Isabel Mega, pesquisas qualitativas realizadas por partidos e institutos de pesquisa identificaram que o eleitorado está em busca de transformação. A partir dessa percepção, as duas campanhas reajustaram seus discursos para incorporar essa narrativa, cada uma à sua maneira.
Mudança como estratégia central
A campanha do PT passou a trabalhar com o conceito de “mudar para o rumo certo”, enquanto a do PL adota o slogan “mudar para melhor”. “Eles partem do mesmo conceito de que estão vendendo uma mudança ao eleitorado e, a partir daí, vão destrinchando o que seria essa mudança”, explicou Isabel Mega.
Para o PT, explorar esse conceito é especialmente relevante diante do discurso bolsonarista de que o modelo apresentado por Lula seria antigo e ultrapassado, e de que Flávio representaria o novo.
A resposta da campanha petista é argumentar que a mudança prometida pelo adversário envolve riscos para políticas sociais e para o posicionamento do país no cenário econômico e internacional.
Segurança pública versus saúde
Outro ponto de destaque na reta final da campanha é a disputa em torno dos temas de segurança pública e saúde. A campanha de Flávio Bolsonaro aposta fortemente na pauta da segurança, com o candidato prometendo “devolver territórios às pessoas” e intensificar o combate à criminalidade — mensagem que ecoa tanto no rádio quanto na televisão.
Em resposta, a campanha de Lula aciona o tema da saúde e evoca a memória da pandemia de Covid-19, lembrando o saldo de mais de 700 mil mortes registradas durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Como parte dessa estratégia, a campanha petista incluiu em sua propaganda a mãe do ator Paulo Gustavo, que morreu de Covid.
“Flávio tem mais dificuldade de entrar no tema da saúde, o Lula tem mais dificuldade de entrar no tema da segurança”, avaliou Isabel Mega.
Agendas em estados estratégicos
Flávio Bolsonaro concentra a maior parte de sua agenda em estados onde venceu no primeiro turno — Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais —, mas também visita Ceará e Pernambuco, onde obteve apenas 31% dos votos, numa tentativa de reverter resultados ou mobilizar eleitores que se abstiveram no dia 4 de outubro.
Já Lula visita estados em que venceu, como Maranhão, Bahia e Pernambuco, mas foca especialmente nos três maiores colégios eleitorais do país — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro —, onde foi derrotado no primeiro turno.
A aposta é que o volume de eleitores nesses estados justifica o esforço de persuasão, mesmo diante de uma derrota anterior. “Esses três juntos são mais da metade dos votos de todo o país”, destacou o analista de Política da CNN Teo Cury.
Eleição decidida no detalhe
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve cerca de 56,1 milhões de votos, contra aproximadamente 53,8 milhões de Lula — uma diferença de menos de 3 milhões de votos. O cenário de polarização extrema faz com que cada detalhe, incluindo o nível de abstenção no próximo domingo (25), possa ser decisivo para o resultado final.
A expectativa em torno do debate previsto para a sexta-feira (23) também é elevada. Aliados de Flávio teriam aconselhado o candidato a adotar uma postura menos agressiva do que a observada no debate anterior. Ao mesmo tempo, a campanha de Lula estaria se preparando para responder com mais ênfase aos ataques do adversário.