Cleitinho prepara governo enquanto o Novo revê rumos em Minas

14 de Out de 2026 - 17:40
 0  0
Cleitinho prepara governo enquanto o Novo revê rumos em Minas

A vitória de Cleitinho Azevedo (Republicanos) ao Executivo estadual no primeiro turno das eleições 2026 abriu uma nova fase na política de Minas Gerais. Eleito com 55,4% dos votos válidos, o senador prepara a transição de governo enquanto o grupo político que comanda o estado desde 2019 enfrenta incertezas sobre o futuro.

A derrota de Mateus Simões (PSD), que recebeu 4,65% dos votos, e o desempenho eleitoral do partido Novo alteraram a distribuição de forças políticas. O resultado também evidenciou o crescimento do PL, impulsionado pela votação de 3,1 milhões de votos de Nikolas Ferreira para deputado federal. O partido conquistou 21 das 53 cadeiras de Minas na Câmara dos Deputados e outras 21 na Assembleia Legislativa. O Novo, por sua vez, não elegeu deputados federais pelo estado e manteve duas cadeiras estaduais.

Em meio à reorganização política, o governador eleito precisa transformar sua popularidade em capacidade de gestão. Uma das primeiras decisões de Cleitinho foi entregar ao vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão, a coordenação da transição. Ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Falcão reuniu uma equipe formada por profissionais com experiência na administração pública, no setor privado e em diferentes áreas de governo.

A composição da comissão oferece algumas pistas sobre a futura administração. Entre os integrantes estão André Abreu Reis, ex-secretário de Planejamento de Belo Horizonte; Bruno Westin, que atuou no Tesouro Nacional; Ana Lúcia de Assis Simões, ex-reitora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM); e o deputado federal eleito Gleidson Azevedo, irmão de Cleitinho, além de profissionais ligados ao gabinete do senador.

Segundo o cronograma encaminhado pela assessoria de Luís Eduardo Falcão, as reuniões setoriais de transição terão início no próximo dia 23 de outubro, pela área de saúde.

Infraestrutura, educação, desenvolvimento econômico e segurança pública estão entre os temas previstos para os dias seguintes. As discussões sobre Fazenda, adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e planejamento estão programadas para novembro.

Governabilidade e contas públicas serão desafios a governo Cleitinho

A vitória eleitoral expressiva não dispensa Cleitinho de construir uma base parlamentar. Embora o Republicanos tenha eleito quatro deputados estaduais, o PL terá a maior bancada da Assembleia mineira. O PT aparece em seguida, com 15 cadeiras.

Para o cientista político e professor do IBMec-BH Adriano Cerqueira, o cenário oferece condições para que o governador eleito forme uma maioria parlamentar. Ele avalia que uma aproximação com o PL será um dos caminhos mais prováveis, inclusive pela convergência entre as duas legendas no cenário político nacional. O próprio Cleitinho esteve reunido com Flávio Bolsonaro (PL) no último dia 8, o que pode indicar essa aproximação.

“Logicamente, o Cleitinho vai fechar com o PL, e vai ajudar os Republicanos a fechar um acordo nacional com o PL; tanto que o Tarcísio de Freitas anunciou que vai mentorar o Cleitinho a administrar o estado. Eu acho que pode surpreender fazendo uma gestão equilibrada, pragmática”, pontua Cerqueira.

A situação fiscal de Minas será outro teste para a próxima administração. O projeto original de orçamento estadual para 2027, encaminhado à Assembleia Legislativa pelo governo Mateus Simões, prevê déficit de R$ 8,869 bilhões. A renegociação da dívida com a União e a necessidade de conciliar investimentos com equilíbrio das contas públicas estarão entre as prioridades do próximo governo.

Cerqueira considera que Cleitinho reúne condições políticas favoráveis, mas ressalta uma incógnita: a capacidade de administrar crises. Apesar da experiência como vereador, deputado estadual e senador, é a primeira vez que estará à frente de um cargo de chefia do Executivo. “Por exemplo, o Zema foi perfeito nesse ponto. O Cleitinho nunca passou por uma experiência como essa”, compara.

Na avaliação do comentarista político e professor Rodrigo Lopes, ainda é cedo para afirmar se o governador eleito conseguirá converter sua popularidade em capacidade de gestão e governabilidade. “Ele é o gestor, tem o poder da caneta, não pode transparecer agora uma figura de ‘cidadão revoltado’ que não pode fazer nada. A capacidade administrativa de Minas Gerais exige principalmente um ajuste, um cuidado com as contas. Então ele vai precisar encarar isso de frente, escolher pessoas sérias para isso”, defende.

Derrota deixa futuro de Mateus Simões indefinido

A eleição trouxe um resultado adverso para Mateus Simões. Apresentado como sucessor político de Romeu Zema (Novo), o governador terminou a disputa em Minas no quarto lugar, com 530.292 votos.

Em dezembro de 2024, quando ainda era vice-governador, Simões afirmou à Gazeta do Povo que encarava sua participação na política como um "experimento sociológico". Na ocasião, disse que estava disposto a enfrentar temas impopulares e ressaltou que mantinha atividades profissionais fora da política, sem depender de mandatos eletivos.

Quase dois anos depois, o resultado das urnas coloca em perspectiva aquela avaliação. Simões assumiu o governo com experiência administrativa e participação nas decisões da gestão Zema, mas não conseguiu transformar essa trajetória em uma candidatura competitiva.

Para Cerqueira, o resultado está relacionado à dificuldade de Simões em construir uma liderança eleitoral própria. O professor reconhece a experiência técnica e administrativa do sucessor de Zema, mas considera que a candidatura dependeu excessivamente da projeção política do presidenciável.

“Ele (Mateus) é um bom técnico, acho que ajudou muito o Zema a tocar o estado. Mas ele virou vice-governador por causa do Zema. Mateus Simões ficou só. Ele não teve nenhum padrinho, nenhuma possibilidade de crescimento. E não é carismático, não é uma pessoa que consegue chamar o eleitor para ele”, opina.

O futuro político de Simões permanece indefinido. Uma das possibilidades levantadas por Cerqueira é a permanência na administração pública, aproveitando a experiência acumulada no Executivo mineiro. Porém, até o momento, não existe confirmação de novo cargo ou projeto.

Por sua vez, Lopes atribui a derrota de Simões principalmente à maneira como a candidatura foi construída, com pouca articulação que favoreceria a difusão do nome do atual governador no estado. “Eu penso que a questão do resultado dele está mais à forma como ela começou, do que ao fim da campanha. Era uma campanha em que a direita já largou na frente, só que largou com várias frentes, e isso foi um problema", aponta.

"O eleitor mineiro não conhecia o Mateus. Existem vários fatores que pesam contra esse movimento. Um pouco a personalidade, um pouco a montagem, um pouco a composição daquele momento que foi feita, tardiamente, e que abriu um espaço muito grande para o Cleitinho”, avalia Lopes.

Novo termina ciclo no governo sem ampliar bancada

A derrota do grupo político ligado a Zema ocorreu paralelamente a um resultado limitado do Novo nas eleições mineiras, que contrasta com as conquistas do partido no restante do país.

Depois de quase oito anos à frente da administração estadual, o partido não conseguiu eleger representantes à Câmara dos Deputados por Minas Gerais. Na Assembleia Legislativa, manteve as duas cadeiras conquistadas em 2022, com a reeleição de Dr. Maurício e Zé Laviola.

Os dois parlamentares reeleitos vieram de outras legendas em 2022 e já possuíam bases eleitorais consolidadas. O desempenho contrasta com a projeção adquirida por Romeu Zema desde sua primeira eleição, em 2018. Candidato à Presidência em 2026, o ex-governador recebeu 98.407 votos em Minas, equivalentes a 0,82% dos válidos.

Para Adriano Cerqueira, entretanto, o resultado não significa necessariamente uma rejeição à administração de Zema. O professor avalia que a força eleitoral do ex-governador sempre foi superior à do partido e que parte expressiva de seus apoiadores preferiu votar em Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.

“Em Minas o Novo nunca foi expressivo, o Zema é que foi. O problema é que o eleitor vê o Zema como o seu governador e o seu presidente é o Bolsonaro. Então o Zema nunca teve chance de conseguir usar o segundo colégio eleitoral, que é Minas, para na disputa nacional chegar a dois dígitos, como o Tarcísio, com São Paulo, conseguiria. Estruturalmente, não tinha como conseguir competir com isso”, avalia.

Já Lopes aponta que a personalidade inovadora do Novo que elegeu Zema em 2018 tem se perdido e isso impacta o eleitor. “O Novo teve um início bastante promissor na cultura política brasileira, com uma resposta a muitas críticas que se faz ao sistema político brasileiro. Era um partido que tinha uma personalidade e que, ao longo do tempo, foi cedendo espaço para o movimento que a gente chama hoje de bolsonarista. E, em muitos lugares, perdeu essa personalidade”, explica.

O presidente estadual do Novo, Christopher Laguna, apresenta outra interpretação do desempenho da legenda. Em entrevista à Gazeta do Povo, afirmou que a principal meta nacional do partido era superar a cláusula de barreira, objetivo alcançado com a eleição de dez deputados federais.

Em Minas, Laguna reconheceu que a expectativa de conquistar entre uma e duas cadeiras na Câmara dos Deputados não foi cumprida. Por outro lado, destacou o crescimento da estrutura municipal e a eleição de dois deputados estaduais, dentro da meta estabelecida pela direção.

Laguna atribui parte das dificuldades ao fenômeno eleitoral de Nikolas Ferreira, cuja votação de mais de três milhões de votos concentrou uma parcela expressiva do eleitorado de direita e contribuiu para a ampliação da bancada federal do PL.

“O nosso maior objetivo era bater a cláusula de barreira. Então, dentro desse processo aí, obviamente, Minas ajudou bastante para que isso acontecesse. E aqui em Minas nós não conseguimos o deputado federal e muito se dá pelo próprio cenário. Nós tivemos o Nikolas com 30% dos votos — isso não aconteceu em nenhum local do país. Com 3 milhões, ele simplesmente tirou todos os votos do mercado, a se ver pelo tanto de gente que ficou lá de fora”.

Laguna pondera que o partido Novo em Minas Gerais continua com 120 mandatários. "Isso é muito importante, o que significa um terço do Novo no Brasil. Não é um resultado ruim, porque vem de um trabalho de quatro anos. Então, nós saímos de quatro vereadores para 95 vereadores. Passamos de dois prefeitos para nove, de nenhum vice-prefeito para 12”, calcula.

Divergências internas expõem disputa sobre futuro do Novo em Minas

O Novo também enfrenta questionamentos sobre a condução de sua estrutura estadual. Sabrina Sarreta, ex-presidente do diretório municipal de Uberaba, no triângulo mineiro, deixou a direção local e se desfiliou do partido em agosto, após divergências com a direção estadual.

Em entrevista à Gazeta do Povo, ela Sabrina conta que os conflitos se intensificaram durante as articulações eleitorais de 2024 e 2026. Sabrina critica a perda de autonomia no diretório de Uberaba em decisões políticas. Também relata que a renúncia dela foi seguida por uma intervenção na estrutura municipal.

“O diretório estadual priorizou os desejos pessoais de Mateus e Zema, em detrimento dos interesses partidários”, diz Sabrina, criticando que, diferentemente do que se previa na fundação do Novo, dirigentes partidários passaram a ocupar cargos remunerados no governo.

Na avaliação da ex-dirigente, a direção estadual passou a priorizar os interesses do grupo político ligado a Simões, em prejuízo da formação de candidaturas e do fortalecimento das bases partidárias no interior. Sabrina afirma que lideranças de Uberaba vinham alertando sobre essa situação havia anos e que perdeu pré-candidatos relevantes no primeiro semestre deste ano por esse motivo. Um dos casos teria sido o de Gleidson Azevedo, então prefeito de Divinópolis.

Após deixar o Novo, ela assumiu a presidência municipal do Republicanos e participou da campanha de Luís Eduardo Falcão. Segundo Sabrina, o grupo de Uberaba foi consultado sobre propostas para o plano de governo e indicou nomes para a transição, entre eles Ana Lúcia de Assis Simões, que está na equipe do governador eleito.

As divergências durante a eleição também envolveram a candidatura de Marco Antônio Costa, conhecido como Superman, ao Senado. O candidato recebeu 1.895.603 votos, equivalentes a 9,24% dos válidos, mas não conquistou uma das duas vagas em disputa. A construção da candidatura dele foi acompanhada por desacordos entre integrantes da campanha e a direção estadual do Novo.

Pessoas próximas à campanha de Marco Antônio Costa relataram dificuldades para obter a confirmação da candidatura durante a pré-campanha. Segundo elas, a indefinição prejudicou articulações políticas e reduziu o tempo disponível para ampliar a visibilidade do candidato. Sabrina também atribui a demora à manutenção do apoio a Marcelo Aro, inicialmente cotado para disputar o Senado na chapa de Mateus Simões.

Laguna rebate críticas e admite insatisfação interna

Questionado sobre os relatos de insatisfação, Christopher Laguna afirmou que divergências são naturais na vida partidária. Ele considera que parte das críticas decorre de disputas internas e de expectativas não atendidas durante os anos em que o Novo esteve no governo estadual.

O dirigente também defendeu os resultados alcançados pela estrutura partidária. Segundo ele, a legenda passou de cerca de 5 mil para 12 mil filiados durante sua gestão, além de ampliar o número de representantes municipais.

“Esse movimento é natural da democracia. E aí é interessante porque o Novo tem militância, né? Às vezes uns acham justo, outros acham injusto, mas o número fala por si só. Nós saímos de quatro vereadores para 95, somos um terço do Novo nacional", aponta ele.

"Oito anos de governo Zema, e muito das insatisfações vem de gente que não conseguiu estar no governo Zema. Essas insatisfações acontecem também pós cláusula de barreira batida, por que não veio antes isso? Agora o partido vale ouro, né?”, rebate o dirigente.

Laguna acrescentou que o Novo mineiro deverá passar por um novo processo de escolha de sua direção nos próximos meses. Ele declarou não defender a permanência indefinida dos mesmos dirigentes e apontou a renovação como parte do funcionamento da legenda.

O dirigente rejeita a interpretação de que a direção estadual teria prejudicado Superman. Segundo o presidente do Novo, a legenda abriu espaço para a candidatura ao Senado quando houve mudanças nas negociações da aliança eleitoral. Procurados pela reportagem, Marco Antônio Costa e as assessorias de Mateus Simões e Cleitinho não responderam.