Quem é Daniella Marques e como ela se tornou o braço direito de Flávio Bolsonaro
Daniella Marques já acumulava mais de uma década de experiência no mercado financeiro quando integrou a equipe de transição do governo de Jair Bolsonaro (PL), ainda no fim de 2018. Nos quatro anos seguintes, participaria de todo o mandato do ex-presidente, como braço forte do ex-ministro da Economia Paulo Guedes.
Começou como chefe da Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos, participando do desenho e da negociação da reforma da Previdência, do Auxílio Emergencial e do projeto de autonomia do Banco Central. Atuou ainda no Congresso na revisão de marcos legais como a Lei do Gás e o novo marco do saneamento.
Em 2022, já à frente da Secretaria de Produtividade e Competitividade, liderou a retomada dos programas Brasil Mais e Crédito Brasil Empreendedor, da regulação do mercado de carbono no país e da ferramenta Monitor de Investimentos, que reúne informações sobre investimentos públicos e privados em todos os setores da economia brasileira.
Na pasta, lançou ainda o programa Brasil pra Elas, de estímulo ao empreendedorismo feminino, em parceria com a Caixa e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
Em julho daquele ano, assumiu a presidência da Caixa em um momento em que o banco passava por uma crise de imagem após denúncias de assédio moral e sexual de seu antecessor.
No cargo, implantou apurações independentes e criou o programa Caixa pra Elas, que abriu espaços dedicados ao atendimento feminino em mil agências, oferecendo orientação financeira, apoio à formalização de microempreendedoras, linhas de microcrédito e suporte a vítimas de violência doméstica, além de instituir uma pausa-maternidade no pagamento de parcelas de empréstimos para mulheres em fase de amamentação.
Com o fim do governo Bolsonaro, assumiu o posto de chairwoman e sócia da gestora Legend Capital. Paralelamente, ajudou a fundar o Grupo Pra Elas, iniciativa voltada à autonomia financeira feminina, educação econômica e letramento em finanças para mulheres.
No início deste ano, passou a colaborar com a campanha do Flávio Bolsonaro (PL) para a presidência da República e, em junho, assumiu formalmente a coordenação do plano econômico do senador.
No último domingo (18), durante o debate presidencial promovido pela Band, foi alvo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que questionava as propostas de Flávio. “Eu só quero saber se você vai seguir o modelo que a tua mulher da economia fala: ‘o Milei é o modelo’, ‘a motosserra do Milei’”, disparou o petista.
“A mulher da economia tem nome: sou Dani Marques e tenho muito orgulho da minha trajetória”, publicou Daniella no X, ainda durante a transmissão do debate, da plateia do estúdio da emissora.
O desejo de ter um banco desde a infância
A trajetória de Daniella Marques começou em 1979, em Barra Mansa, no interior do Rio de Janeiro, onde nasceu, filha de um funcionário de carreira do Banco do Brasil e de uma professora da rede pública estadual.
“Minha avó pariu nove filhos em casa. Minha mãe ia para a escola pública com um caderno em um saco de arroz”, contou em um debate para um canal do YouTube.
Dos 8 aos 12 anos, sua rotina incluía “brincar de trabalhar” na agência bancária onde o pai trabalhava. “Meu pai falava: ‘se ganhar na loteria o que você vai querer?’ Eu falei: ‘vou querer ter um banco’”, lembrou durante uma entrevista à TV Record.
Aos 13, mudou-se para o Rio, onde ingressaria, cinco anos mais tarde, no curso de economia da PUC-Rio. Acabou migrando para administração de empresas para poder conciliar os estudos com o trabalho que a permitia pagar as mensalidades da faculdade.
No campo profissional, sua trajetória teve início como estagiária no Banco Prosper. Antes dos 30, já era diretora-executiva da Oren Investimentos e, em dezembro de 2010, assumiu a Diretoria de Risco e Compliance da Mercatto.
Em 2013, passou a trabalhar pela primeira vez ao lado de Paulo Guedes na Bozano Investimentos (atual Crescera Capital), que adquirira a Mercatto e a BR Investimentos, fundado pelo economista que anos depois viria a ser o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro.
Economistas Adolfo Sachsida e Daniella Marques coordenam programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (PL)
A transição de carreira e o início na vida pública
Daniella Marques estava no topo de sua carreira, quando, em 2018, recebeu o que ela descreve como um “chamado de Deus” e decidiu servir a vida pública. “Estava tudo indo muito bem. Eu tinha uma empresa que eu gostava, com sócios que eu gostava, o negócio estava crescendo, prosperando. E eu tinha ainda essa inquietação de que aquilo era um começo, não um fim”, lembra.
No final de 2017, Guedes publicou um artigo no jornal O Globo, no qual analisava o cenário político e econômico brasileiro após décadas de governos social-democratas, apontando uma forte estagnação e o esgotamento do modelo fiscal.
“O Bolsonaro era uma figura que viajava o Brasil com esse discurso, mas ainda não com notoriedade nacional. Depois disso eles se conheceram e ele [Guedes] foi convidado para fazer o plano, que era O Caminho da Prosperidade”, conta Daniella.
“Eu falava para ele: ‘Paulo, preciso te ajudar a fazer isso dar certo’. E ele: ‘Dani, mas isso é uma missão, e é difícil e vai pra Brasília e é pancadaria’. Aí eu falei: ‘mas eu vou ficar fazendo o quê? Vou ficar tomando chá no Leblon e levando meu filho pra escola?’”
Aos 39 anos, mudou-se para a capital federal, trocando os ganhos do mercado privado por um salário de aproximadamente R$ 25 mil no serviço público. No Ministério da Economia, foi a única mulher entre os 21 “supersecretários” do chamado dream team de Paulo Guedes.
Em Brasília, Daniella destacou-se pela leitura do ambiente político e pela articulação com o Congresso para a aprovação de matérias decisivas. A atuação rendeu-lhe acesso direto ao Palácio do Planalto, onde despachava diretamente com Bolsonaro mesmo quando Guedes não estava presente.
A aproximação com Flávio ocorreu durante a pandemia, quando passou a tratar, no Senado, de temas envolvendo medidas econômicas. Com o tempo, a relação passou para a esfera pessoal: Fernanda, esposa do senador, foi dentista do seu filho Pedro Henrique, hoje com 11 anos.
A entrada na campanha de Flávio Bolsonaro
Após deixar o governo, em janeiro de 2023, Daniella Marques voltou ao setor privado, na Legend Capital, mas manteve a dedicação à causa da educação financeira voltada à autonomia feminina.
Em 31 de outubro de 2024, quatro dias após o segundo turno das eleições municipais, durante o chá de bebê de seu segundo filho, Flávio Bolsonaro, um dos convidados da festa, pediu pela primeira vez sua ajuda na elaboração de um plano econômico para a campanha eleitoral de 2026.
“Ele falou: ‘Dani, vamos voltar em 26’, e eu achando que era o pai [Jair Bolsonaro], que não estava preso ainda. Com barriga desse tamanho assim, eu falei: ‘só preciso parir a criança’. Ele: ‘Dani, não vai ter jeito, cara. Você vai ter que ajudar. A mulher do nosso time é você’”, conta.
Após a prisão de Bolsonaro, em novembro de 2025, Flávio foi escolhido pelo ex-presidente para disputar a corrida ao Palácio do Planalto, e Daniella passou a colaborar com a pré-campanha, em princípio de maneira informal.
Diante da maior rejeição de Bolsonaro entre as mulheres, ela passou a ser cotada a vice do senador, no que poderia ser um aceno ao eleitorado feminino. Em março, em meio às especulações sobre a chapa, filiou-se ao Republicanos, mas, em agosto, acabaria migrando para o PL.
Em junho, já havia anunciado que se licenciaria da presidência do conselho da Legend Capital para assumir a coordenação do núcleo de economia da campanha de Flávio.
A sintonia com o candidato é pública: em um jantar com empresários, o próprio senador declarou que Daniella é seu “braço direito, braço esquerdo, perna direita e perna esquerda”.
Na campanha, é a principal porta-voz do programa econômico e comanda 27 grupos temáticos técnicos ao lado do economista Adolfo Sachsida e do senador Rogério Marinho (PL-RN).
Daniella Marques é a coordenadora do plano econômico do candidato Flávio Bolsonaro (PL).
Capitalismo popular: liberalismo de mercado com mobilidade social
Seu pensamento econômico fundamenta-se na aliança entre o liberalismo de mercado e a promoção da mobilidade social, conceito que sintetiza sob a tese do “capitalismo popular”.
Em vez de focar apenas em grandes indicadores macroeconômicos, a ideia por trás do conceito é colocar o poder público a serviço do cidadão comum e dos microempreendedores, tratando a economia como uma “rampa de ascensão social”.
Ela defende que os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, devem ser vistos como o “primeiro degrau” e um ponto de partida de proteção social, e não como um destino permanente.
É dela a proposta, distorcida por apoiadores do PT, de uma regra de transição de dois anos para que beneficiários ingressem no mercado formal ou abram um negócio, sem perder o direito de retomar o benefício caso a empreitada não dê certo.
Assim como Guedes em 2018, sustenta que o equilíbrio das contas públicas é o pré-requisito para conter a inflação e baixar os juros. O plano que coordena prevê um corte de até R$ 200 bilhões em despesas públicas, a redução de ministérios de 38 para até 22 e a eliminação de aproximadamente 22,5 mil cargos comissionados.
Para ela, o endividamento e a inflação corroem o poder de compra das famílias mais vulneráveis. “Não há nada mais social nesse momento do que botar as contas no lugar”, disse em evento do Lide, realizado em setembro na capital paulista.
Daniella prega ainda a desburocratização e a simplificação tributária, com a revogação de mil normas e regulamentaos, com o objetivo de destravar investimentos privados e aumentar a produtividade nacional.
Diferentemente do “Posto Ipiranga” de Bolsonaro, no entanto, adota uma postura mais pragmática em relação às privatizações, defendendo que “a lógica não é necessariamente privatizar tudo”, mas reavaliar periodicamente a eficiência e o custo de gestão das empresas públicas.
Fora dos debates macroeconômicos, Daniella rejeita os discursos de vitimização e de oposição agressiva entre homens e mulheres. “Fortalecer uma mulher faz uma família mais forte; não faz um homem mais fraco. O brilho de um não apaga o brilho de outro. Homens e mulheres são seres complementares e não estão em competição.”