'Um clã tão radical quanto disfuncional': o que diz a reportagem de capa do Financial Times sobre a família Bolsonaro

26 de Set de 2026 - 14:00
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'Um clã tão radical quanto disfuncional': o que diz a reportagem de capa do Financial Times sobre a família Bolsonaro

A família é o tema de reportagem de capa da revista de fim de semana do Financial Times, um dos jornais de economia mais influentes do mundo. Com o título "Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro", o texto, assinado pelo chefe do escritório do jornal no Brasil, Michael Pooler, descreve o clã como uma família "tão radical quanto disfuncional", que pode estar à beira de um retorno ao poder com a candidatura do senador à Presidência.

Segundo o FT, os Bolsonaro oscilam entre o conservadorismo e o caos e praticam um estilo paranoico de política. O jornal os compara à família , afirmando que ambas encarnam o espírito político dos anos 2020, com a fusão entre celebridade, e busca pelo poder.

A briga com Michelle

A reportagem abre com um episódio de junho, pouco antes de um jogo da seleção brasileira na . Em um vídeo no Instagram, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acusou o enteado Flávio de humilhá-la em uma disputa interna do partido, e chamou a atitude dele de "uma facada nas costas".

Para o FT, os detalhes da briga, sobre alianças e candidaturas regionais, importavam pouco. O que chamou atenção foi a hostilidade aberta, que expôs uma fissura no centro da principal da direita brasileira justamente quando ela planejava voltar ao poder.

Segundo um assessor da campanha ouvido pelo jornal, naquele momento a equipe de Flávio chegou a achar que estava tudo acabado.

Madrasta e enteado só fizeram as pazes publicamente em meados de agosto, depois de semanas de mediação de aliados. O jornal registra que a reconciliação, com orações e abraços, não convenceu todo mundo.

O pastor Silas Malafaia, aliado próximo da família e que celebrou o casamento de Jair e Michelle, disse ao FT que a disputa é sobre herança política. "A briga é sobre quem vai carregar o nome", afirmou.

O patriarca e os filhos

O jornal descreve Jair Bolsonaro como um "rei-sol em declínio", em torno do qual orbitam a mulher e os três filhos mais velhos. Condenado a 27 anos de prisão por tramar a permanência ilegal no poder, ele cumpre prisão domiciliar em Brasília, com visitas restritas e proibido de se comunicar publicamente.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas

Dentro da família, segundo o FT, Jair inspira reverência. Uma pessoa que conviveu com os Bolsonaro disse ao jornal que os filhos tinham medo do pai: "Ele é como um deus para eles". A reportagem lembra que o ex-presidente, que é ex-militar, chama os filhos por números para não confundir os nomes: Flávio é o "01", Carlos o "02" e Eduardo o "03".

Flávio, 45 anos, é apresentado como o "moderado autodeclarado" da família, alguém que se definiu como um "Bolsonaro vacinado". Pessoas próximas o descrevem ao jornal como o filho "mais normal", tranquilo e que não guarda rancor. Em entrevista ao FT no início do ano, ele admitiu não chegar aos pés do pai: "Como comparar o filho do Pelé com o próprio Pelé?".

O jornal conta que, na convenção do PL em julho, Jair apareceu no telão na forma de um avatar criado por inteligência artificial para apresentar Flávio como seu sucessor, e que o filho enxugou uma lágrima no palco.

Carlos, 43 anos, é descrito como o estrategista das redes sociais creditado pela vitória de 2018, chamado pelo próprio pai e pelo irmão de "pit bull da família". Já Eduardo, 42, é o que mais se parece com Jair no estilo, segundo o FT. Morando no Texas desde 2025, ele teve o mandato de deputado cassado e foi condenado à revelia em junho por pressionar autoridades americanas a interferir no julgamento do pai.

Michelle, a 'arma secreta'

O FT dedica boa parte da reportagem à ascensão de , que o jornal aponta como possível "arma secreta" dos Bolsonaro nesta eleição. Evangélica, 27 anos mais jovem que o marido e um ano mais nova que Flávio, ela deixou de ser uma primeira-dama discreta para se tornar, segundo uma pesquisa citada pelo jornal, a mulher mais poderosa do país.

A reportagem lembra que pesquisas do ano passado chegaram a mostrar Michelle com mais chances de derrotar Lula do que Flávio ou Eduardo, o que alimentou a rivalidade com os enteados. Hoje ela é candidata ao Senado pelo Distrito Federal, a pedido do marido.

Escândalos e a eleição

O jornal relata uma série de tropeços de Flávio Bolsonaro em 2026. Em maio, um áudio vazado mostrou o senador pedindo dinheiro ao , dono do Banco Master, cuja quebra, segundo o FT, soma cerca de US$ 10 bilhões. O dinheiro seria para financiar , estrelado pelo ator americano Jim Caviezel, de A Paixão de Cristo. De acordo com o jornal, o projeto recebeu ao menos US$ 12,3 milhões de Vorcaro, que está preso e é o centro de um amplo escândalo de corrupção em Brasília.

Flávio nega irregularidades e afirma que se tratava de um acordo privado. O FT acrescenta que a polícia investiga se parte do dinheiro bancou a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, o que os irmãos negam.

Ainda assim, escreve o jornal, os ventos agora sopram a favor de Flávio. A maioria das pesquisas mostra Lula ligeiramente à frente no primeiro turno, marcado para 4 de outubro, mas aponta empate técnico num eventual segundo turno. Segundo o FT, os mercados de apostas já dão ao candidato do PL mais chances de vencer do que ao presidente.

O jornal aponta uma ironia: o ministro Alexandre de Moraes, que conduziu o julgamento de Jair, pode acabar ajudando a família, já que o escândalo bancário atingiu o próprio Supremo Tribunal Federal após . Ambos negam irregularidades.

Os cenários

Se Flávio vencer, segundo o FT, os Bolsonaro se consolidarão como uma dinastia política, e não como uma anomalia passageira. O jornal afirma que ele pressionaria imediatamente o Congresso por uma anistia ampla aos condenados pela trama golpista e pelo , o que poderia provocar uma crise constitucional com o Supremo. O deputado Lindbergh Farias (PT) disse ao jornal que uma vitória de Flávio seria "quase a transformação do Brasil numa colônia americana".

Se Flávio perder, o cenário é outro. Uma pessoa próxima de Jair contou ao FT que o ex-presidente disse que, nesse caso, "a era Bolsonaro acabou". O jornal avalia que uma derrota poderia abrir espaço para uma direita mais moderada, como a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Há ainda um terceiro cenário: se Flávio e Carlos perderem e Michelle for eleita senadora, a madrasta passará a ser a Bolsonaro com o mandato nacional mais importante. Os filhos não gostariam, escreve o FT, mas a candidatura dela pode manter vivo o negócio da família.

A reportagem termina com uma frase do ex-chanceler Ernesto Araújo, para quem Bolsonaro "não é só um homem, é uma ideia".