Análise: Quais são as maiores preocupações das campanhas de Flávio e Lula?
As campanhas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) traçaram estratégias distintas para a última semana do segundo turno, cada uma lidando com preocupações específicas que podem definir o resultado da disputa presidencial. A avaliação é do analista de Política da CNN Pedro Venceslau ao CNN 360°.
A preocupação da campanha de Flávio Bolsonaro
No entorno de Flávio Bolsonaro, a principal preocupação é com a desmobilização do eleitorado de direita.
Segundo Pedro Venceslau, a própria campanha admite que, na primeira semana após o primeiro turno, agiu de forma precipitada: começou a discutir a formação de um novo governo, a distribuição de cargos e a disputa pela mesa diretora do Congresso Nacional, demorando para retomar a mobilização nas ruas.
A avaliação interna é de que as grandes mobilizações de rua foram o diferencial de Flávio na reta final do primeiro turno, inclusive no Nordeste.
Por isso, a ordem agora é intensificar as atividades de rua, gerar imagens de apoiadores participando dos atos e divulgá-las nas redes sociais para criar um clima de “onda” favorável ao candidato.
Reservadamente, a campanha de Flávio também demonstra preocupação com o uso da máquina do governo federal.
Venceslau destacou que Lula vem anunciando uma série de medidas, e que historicamente algumas campanhas presidenciais registraram crescimento do candidato incumbente na reta final — como ocorreu com Dilma Rousseff em 2014.
Além disso, a campanha de Flávio reclama do que chama de “campanha do medo” e do efeito que ela pode ter sobre eleitores beneficiários de programas sociais e trabalhadores impactados pelo debate sobre o fim da escala 6×1.
Sobre esse tema, a tendência é que a campanha faça um ajuste de posicionamento, já que Flávio não respondeu de forma enfática à questão durante o debate na Band.
O voto oculto preocupa a campanha de Lula
Já no campo petista, a principal preocupação é com o chamado “voto oculto” ou “voto envergonhado”. Trata-se de um fenômeno em que o eleitor, ao ser abordado por pesquisadores de institutos, não revela seu voto verdadeiro.
Segundo Venceslau, esse eleitor não necessariamente apoia Flávio Bolsonaro, mas vota contra Lula — e sente constrangimento em declarar isso abertamente.
O analista lembrou que, nas eleições de 2022, a diferença entre Lula e Jair Bolsonaro foi 2 pontos percentuais menor do que o registrado pelas pesquisas de intenção de voto, justamente por conta desse fenômeno.
Por isso, a meta da campanha de Lula é chegar à sexta-feira (23) com pelo menos dois pontos percentuais de vantagem nas pesquisas — e não apenas em situação de empate técnico ou com um ponto à frente. Essa margem funcionaria como uma “gordura” capaz de absorver o impacto do voto envergonhado.
O que motiva os eleitores de cada candidato
Uma pesquisa do Instituto Datafolha trouxe dados que surpreenderam ao revelar as motivações dos eleitores.
Entre os que votam em Flávio Bolsonaro, 41% apontam a mudança e a alternância de poder como principal razão, enquanto 31% citam a rejeição ao adversário.
Já entre os eleitores de Lula, 48% são motivados pela proteção social e de classe — incluindo programas de transferência de renda, direitos trabalhistas e o debate sobre o fim da escala 6×1.
Em segundo lugar, com 22%, aparece a questão do emprego. Apenas em terceiro lugar, com 17%, está a rejeição a Flávio Bolsonaro.
Pedro Venceslau destacou que o senso comum apontava que ambos os eleitorados eram movidos principalmente pelo antipetismo ou pelo antibolsonarismo.
Os dados do Datafolha, no entanto, mostram que, para os eleitores de Lula, evitar a vitória de Flávio é apenas a terceira motivação, enquanto para os eleitores de Flávio, o antipetismo ocupa o segundo lugar — e não o primeiro.