Da Bolsa ao trading: como evolui a jornada da mulher investidora

A presença das mulheres na Bolsa cresceu nos últimos anos, mas esse avanço ainda não ocorre da mesma maneira em todas as áreas do mercado. Da entrada na renda variável às operações de trading, os números mostram uma diferença relevante: mais investidoras chegaram à Bolsa, enquanto segmentos associados a estratégias mais ativas continuam com participação feminina bem menor.
O contraste aparece quando se compara o universo mais amplo da renda variável com o mercado de derivativos, que reúne contratos futuros, opções e swaps. Esses instrumentos podem ser utilizados tanto para proteção quanto para diferentes estratégias de negociação e incluem produtos bastante conhecidos entre traders, como os minicontratos futuros de Ibovespa e dólar.
No segundo trimestre de 2026, a B3 contabilizava 1,541 milhão de mulheres entre 5,714 milhões de pessoas físicas com posição em renda variável. Elas representavam 27% da base, ante 24% em 2022, quando havia 1,223 milhão de investidoras.
No mercado de derivativos, a fotografia é diferente. No acumulado de janeiro a junho deste ano, 33,3 mil mulheres haviam realizado ao menos uma operação, diante de 202,5 mil homens. A participação feminina era de 14% dos 235,8 mil CPFs que negociaram esses instrumentos.
A proporção praticamente não mudou nos últimos anos: ficou entre 14% e 16% desde 2022. A própria B3 observa que o perfil por gênero dos investidores em derivativos pouco se alterou no período.
O levantamento não permite saber quantas dessas pessoas fazem day trade, estratégia em que uma posição é aberta e encerrada no mesmo pregão. Por isso, os 14% não podem ser tratados como a participação feminina entre day traders. Ainda assim, os dados ajudam a dimensionar a presença de mulheres em um mercado bastante ligado ao ambiente de trading.
Essa relação fica mais clara ao observar os produtos negociados. No primeiro semestre, o futuro de minicontrato de Ibovespa foi o derivativo com maior número de investidores pessoa física, com 172,8 mil CPFs, seguido pelo minicontrato de dólar, com 86,8 mil.
O que acontece entre a chegada à Bolsa e a entrada em ambientes como esse? Para profissionais que acompanham o mercado sob perspectivas diferentes, as barreiras começam antes da primeira operação e podem continuar ao longo da trajetória, conforme a investidora busca mais conhecimento, diversifica a carteira e avalia novas estratégias.
As barreiras começam antes da Bolsa
Para Maria Helena Válio, fundadora e CEO da Women Invest, parte dessa diferença tem raízes anteriores ao próprio mercado financeiro.
“O que trava a mulher é, em primeiro lugar, a barreira histórica construída dentro de casa. Por gerações, muitas mulheres aprenderam que cuidar do dinheiro era função do pai, do irmão, do marido; nunca da mulher”, disse, durante a 5ª edição do Women Invest Summit 2026.
Na avaliação de Maria Helena, esse histórico contribuiu para alimentar por muito tempo a percepção de que finanças e mercado de capitais seriam assuntos predominantemente masculinos. O efeito, segundo ela, foi afastar parte das mulheres da administração direta do próprio patrimônio.
Os dados mostram que esse quadro vem mudando. Entre 2022 e 2026, o número de mulheres na renda variável passou de 1,223 milhão para 1,541 milhão. A participação feminina na base avançou de 24% para 27%.
Há outros sinais dessa transformação. Segundo a B3, mulheres que chegaram à renda variável apresentaram valor mediano de primeiro investimento de R$ 188, acima dos R$ 120 registrados entre os homens. O dado não mede disposição para assumir risco, mas mostra que a menor presença feminina não significa necessariamente uma entrada com valores inferiores.
Chegar à Bolsa, porém, é apenas uma das etapas.
Entrar é uma etapa; diversificar é outra
Para Maria Helena, uma nova barreira pode surgir quando a investidora começa a considerar outras classes de ativos ou instrumentos mais sofisticados.
“Um dos pontos que mais trava essa evolução é a ausência de uma curadoria qualificada.”
Segundo ela, a transição tende a ocorrer com maior segurança quando a investidora compreende o racional, os riscos e a função de cada produto dentro da carteira.
A discussão não significa que homens e mulheres estejam necessariamente muito distantes no número de produtos mantidos. No levantamento mais recente da B3, ambos apresentam, em média, 1,8 produto por investidor.
Para Maria Helena, parte do problema está na forma como o próprio mercado comunica produtos e estratégias.
“O mercado financeiro ainda abusa de um ‘financês’ muito técnico, que afasta em vez de acolher. Traduzir o mercado de capitais com clareza, objetividade e respeito à inteligência da cliente é o primeiro passo para criar conexão real”, afirma.
Ela também defende que bancos, corretoras e plataformas mostrem com mais clareza a função de cada instrumento dentro do portfólio, em vez de concentrar a conversa apenas no produto.
A ideia não é reduzir ou relativizar os riscos de instrumentos mais complexos. É permitir que a decisão seja tomada com maior compreensão sobre como eles funcionam e em quais situações podem ou não fazer sentido para determinada carteira.
Mulheres ampliam presença na renda variável
| Ano | Mulheres | Participação feminina |
|---|---|---|
| 2022 | 1,223 milhão | 24% |
| 2023 | 1,293 milhão | 26% |
| 2024 | 1,381 milhão | 26% |
| 2025 | 1,438 milhão | 26% |
| jun/2026 | 1,541 milhão | 27% |
Fonte: B3 — Uma análise da evolução dos investidores na B3, 2º trimestre de 2026.
Em 13 anos, o trading também mudou
A trader Ivy Hypolito observa essa transformação a partir de outra perspectiva. Há 13 anos no mercado, ela acompanhou mudanças dentro do próprio ambiente de trading.
“Quando comecei no mercado, há 13 anos, o ambiente de trading era ainda mais masculino e a presença de mulheres era bastante pontual. De lá para cá, percebi uma mudança significativa: hoje há mais mulheres estudando, operando e também ocupando posições de referência e produção de conteúdo no mercado.”
Na avaliação de Ivy, a maior visibilidade não significa que as barreiras desapareceram. Além da formação técnica necessária a qualquer pessoa interessada em operar, ela identifica questões relacionadas à confiança e à sensação de pertencimento em um ambiente historicamente masculino.
“A mudança mais relevante, na minha visão, é que as mulheres deixaram de ser apenas participantes para também se tornarem protagonistas. Hoje, elas estão criando comunidades, compartilhando conhecimento e construindo autoridade no mercado.”
Esse movimento não aparece necessariamente na proporção de mulheres registrada nas estatísticas de derivativos. Mas altera outro aspecto do mercado: quem é visto como referência por quem está chegando.
Quando quem está começando encontra referências
Para Ivy, encontrar outras mulheres atuando profissionalmente pode ajudar uma iniciante a enxergar aquele ambiente como uma possibilidade também para ela.
“Quando uma iniciante vê outras mulheres atuando de forma profissional no mercado, ela consegue enxergar que aquele também pode ser um espaço para ela.”
A importância dessas referências, segundo Ivy, não termina na entrada.
“O day trade exige estudo, disciplina e bastante controle emocional, e a trajetória pode ser desafiadora, especialmente no início. Ter contato com mulheres mais experientes permite entender que dificuldades fazem parte do processo e que existe uma trajetória possível de desenvolvimento.”
Foi uma percepção semelhante que levou Cláudia Ferrari a criar o Day Trade Delas, comunidade voltada a mulheres interessadas nesse tipo de operação.
Um espaço para perguntar, errar e aprender
Fundadora do Day Trade Delas, Ferrari conta que a predominância masculina era evidente nas salas de operação e nos grupos de estudo que frequentava.
“Por muito tempo, eu entrava em salas de operação e grupos de estudo em que o cenário era sempre o mesmo: maioria absoluta de homens. Quando havia mulheres, elas quase não participavam”, relata.
Na percepção de Cláudia, a pouca participação nas conversas nem sempre significava falta de interesse.
“Eu sentia na pele o porquê: existia um receio enorme de fazer uma pergunta básica, de expor uma dificuldade e acabar virando alvo de julgamento, ou pior, de ouvir comentários machistas que minavam a nossa confiança”, afirma.
A partir dessa experiência, surgiu a proposta de criar um ambiente em que mulheres pudessem apresentar dúvidas, discutir erros e compartilhar dificuldades com maior liberdade.
“Percebi que faltava um ambiente onde a gente pudesse errar, aprender, trocar figurinhas e crescer sem precisar provar nada o tempo todo”, diz.
O Day Trade Delas começou a ganhar forma em setembro de 2025. Dois meses depois, foi criado o primeiro grupo no WhatsApp. Atualmente, a comunidade reúne aproximadamente 150 participantes, de iniciantes a traders mais experientes, incluindo mulheres de diferentes gerações.
“Essa mistura é, sem dúvida, o nosso maior ativo, porque gera uma troca de bagagem multigeracional muito rica para todo mundo”, avalia Ferrari.
O crescimento desse tipo de comunidade acompanha uma mudança mais ampla: à medida que aparecem novas referências no trading, surgem também espaços organizados especificamente para aproximar mulheres desse universo.
Barreiras que estão fora da tela
Nem todos os obstáculos relatados pelas participantes dizem respeito a gráficos, estratégias ou leitura de mercado.
Segundo Ferrari, conciliar operações e estudos com outras responsabilidades aparece com frequência entre as integrantes da comunidade.
“No dia a dia da comunidade, a gente ouve muito sobre o peso de conciliar a operação com a rotina de casa, a família e os filhos”, afirma.
Ela relata também casos em que a resistência aparece dentro da própria família.
“Não é raro escutar relatos de mulheres que ouvem em casa que day trade não é para elas ou que aquilo não é coisa de mulher”, conta.
Nesse contexto, Cláudia vê a convivência com outras traders como uma forma de reduzir o sentimento de isolamento.
“Quando elas entram no Day Trade Delas, o cenário muda porque elas encontram espelho. Veem outras mulheres passando pelos mesmos perrengues e, principalmente, conseguem se inspirar naquelas que já passaram por essa fase e viraram o jogo”, explica.
Para Ferrari, a troca não substitui conhecimento técnico, método ou gestão de risco. “É essa rede de apoio real que acelera o amadurecimento delas na profissão”, sustenta.
Uma ponte, não um mercado separado
A existência de comunidades direcionadas às mulheres também traz uma questão: ampliar a participação feminina significa criar espaços separados?
Maria Helena rejeita essa interpretação.
“É nesse ponto que as referências e os ecossistemas estruturados exercem uma função estratégica: eles operam como pontes de acesso, e não como divisórias de mercado.”
Segundo ela, a proposta não deve ser criar um “mercado financeiro de mulheres” isolado do restante do setor. Esses espaços podem funcionar como ponto de acesso até que a investidora adquira conhecimento e segurança para atuar nos segmentos que escolher.
A leitura converge com a experiência descrita por Ivy. Encontrar referências femininas não significa limitar com quem uma mulher deve aprender ou operar, mas ampliar a percepção de que aquele ambiente também pode ser ocupado profissionalmente por ela.
No trading, as exigências continuam as mesmas
Comunidades e referências não alteram as características do day trade nem eliminam os riscos envolvidos.
Operações de curto prazo exigem formação, método, disciplina, controle emocional e gestão de risco de qualquer trader. Também envolvem possibilidade de perdas, independentemente do gênero de quem está operando.
A questão levantada pelas especialistas aparece em outra etapa: quem considera chegar a esse ambiente, quem encontra referências pelo caminho e quem se sente confortável para permanecer durante o processo de aprendizado.
É justamente nesse ponto que o contraste dos números ganha relevância.
A série da B3 mostra como a participação feminina nesse mercado se comportou ao longo dos últimos anos:
Participação feminina nos derivativos
| Ano | Mulheres | Participação feminina |
|---|---|---|
| 2022 | 73,2 mil | 16% |
| 2023 | 57,8 mil | 15% |
| 2024 | 50,5 mil | 14% |
| 2025 | 49,5 mil | 15% |
| jan-jun/2026* | 33,3 mil | 14% |
Fonte: B3. Considera CPFs únicos que realizaram ao menos uma operação com derivativos listados, como futuros, opções e swaps. *2026 considera janeiro a junho; os anos anteriores, janeiro a dezembro.
O que o mercado ainda precisa mudar
Para Maria Helena, ampliar a presença feminina também passa pela forma como bancos, corretoras e plataformas se relacionam com suas clientes.
“As instituições precisam assumir um papel consultivo. O atendimento precisa mostrar o papel de cada instrumento no portfólio”, afirma.
Na avaliação dela, isso exige uma mudança na abordagem comercial. Em vez de concentrar a conversa apenas nas características de um produto, o atendimento precisa relacioná-lo aos objetivos que levaram a investidora a procurar aquela solução.
Essa demanda tende a ganhar importância à medida que a carteira se torna mais diversificada e entram em cena decisões que exigem maior conhecimento técnico.
É nesse ponto, segundo Maria Helena, que a comunicação do mercado ainda tem espaço para evoluir.
“Quando a investidora compreende a função exata de cada peça e vê que a carteira reflete seus objetivos de vida, a tomada de decisão se torna natural, segura e engajada”, afirma.
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