Samsung, Roku e Vizio são suspeitas de manter rastreamento ativo nas TVs mesmo após desativação
Desligar o rastreamento de uma smart TV nem sempre desliga o rastreamento. É a conclusão de um estudo da Northeastern University, de Boston, que testou 12 televisores de dez fabricantes e flagrou tráfego típico de reconhecimento automático de conteúdo, o ACR, continuando depois de o usuário recusar o recurso nos menus da Samsung, da Vizio e, em parte, da Roku.
Chamado Watching the Watchers, o trabalho rodou 5.943 experimentos automatizados em aparelhos com os oito sistemas que equipam cerca de 95% das TVs dos Estados Unidos. Nas TVs da LG, da Sony, da Amazon e da Hisense, o botão de desligar funcionou.
Nas outras, os pesquisadores não conseguem provar o que viajava nos pacotes, porque quase tudo é criptografado, mas o padrão de tráfego para os servidores de ACR seguiu igual com o recurso “desativado”.
O que é ACR e o que o estudo da Northeastern mediu
O ACR tira amostras curtas do áudio ou do vídeo que está na tela, ou impressões digitais derivadas delas, e manda para um servidor que as compara com um catálogo para descobrir o que a pessoa assiste.
Funciona com qualquer fonte, de antena a HDMI, e alimenta medição de audiência, publicidade dirigida e venda de dados. Segundo o estudo, 82% dos lares americanos têm uma TV com esse recurso.

Os pesquisadores montaram um laboratório em que a mesma programação chegava a todas as TVs por antena, por HDMI e por espelhamento de tela, sem ninguém no controle remoto, enquanto todo o tráfego de rede era capturado.
Cada um dos dez cenários de uso rodou 30 vezes com o ACR ligado e 30 vezes depois do opt-out, em ordem aleatória, para medir se a recusa mudava alguma coisa.
“O botão de desligar precisa significar desligado.” Pesquisadores da Northeastern University, no site do estudo
Com o ACR ligado, o resultado foi quase binário: a antena foi rastreada em todos os sistemas analisados, e a maioria também vigiou o próprio serviço de streaming embutido. Nenhuma TV rastreou Netflix ou YouTube. Isso bate com acordos já conhecidos.
O Tubi, gratuito com anúncios, foi rastreado no Tizen em 29 de 30 rodadas. O HDMI foi vigiado em cinco de sete sistemas, e a Vizio mandava dados até com a TV parada na tela inicial.
Samsung, Roku e Vizio: o que continuou depois do opt-out?
Na Samsung, o tráfego compatível com ACR continuou em todas as 30 rodadas do serviço de streaming próprio, em 41 de 60 com antena, em 18 de 30 com HDMI e em 6 de 30 no Tubi, além de aparecer em algumas rodadas de Netflix e YouTube, que não eram rastreadas nem com o recurso ligado.
Na Vizio, o ajuste de privacidade não teve efeito observável. O servidor de ACR identificado fica na Amazon.
Já a Roku fica no meio do caminho, porque o opt-out desliga o rastreamento da antena na Roku TV, mas não vale para o canal de streaming da própria Roku, e só a TCL avisa isso no menu. O estudo não afirma que essas empresas guardam o histórico de quem recusou.
O que ele mostra é que a TV continua conversando com o mesmo servidor, no mesmo ritmo, e que o usuário não tem como saber o que vai dentro.

Da Hisense veio o caso mais grave, porque o VIDAA enviava as mensagens de ACR por MQTT sem criptografia, expondo identificador do aparelho, nome do app, fonte de vídeo e a impressão digital do áudio.
Um servidor sem autenticação deixava à mostra mais de 57 milhões de resultados de detecção de mais de um milhão de TVs. A Hisense passou a exigir login depois do aviso, mas o tráfego seguiu aberto. A Vizio ainda vaza o título do programa do serviço WatchFree+ em endereços de rede legíveis, mesmo com o ACR desligado.
Confira um resumo de como ficou:
Sistema Fabricante Depois do opt-out Tizen Samsung 41 de 60 com antena, 18 de 30 com HDMI SmartCast Vizio Sem efeito observável; servidor de ACR contatado em todas as rodadas Roku OS Roku e TCL Não cobre o canal da Roku; TCL vazou em 9 de 90 webOS LG Opt-out funcionou Google TV Sony Opt-out funcionou Fire TV OS Amazon Opt-out funcionou VIDAA Hisense Opt-out funcionou, mas dados trafegam sem criptografia
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Como se proteger do ACR na sua smart TV
A saída mais segura, segundo os autores, é tirar a TV da internet e usar um aparelho de streaming à parte. Para quem quer manter a conexão, o estudo publicou no GitHub uma lista de bloqueio dos servidores de ACR identificados, que pode ser carregada no roteador ou num bloqueador como o Pi-hole, e que nos testes não atrapalhou a imagem nem os apps. Em LG, Sony, Fire TV e Hisense, o opt-out no menu bastou.

No Brasil, Samsung e LG dominam as prateleiras, a Roku entra por parceiras como a Philco e a Semp, e a Vizio não é vendida.
Os resultados valem para os aparelhos e firmwares testados nos Estados Unidos, com alerta dos próprios autores de que outros modelos e regiões podem se comportar de outro jeito.
Em 2017, a Vizio já pagou US$ 2,2 milhões por rastrear sem avisar, e o estudo pede aos reguladores que testem os botões de opt-out em vez de confiar na descrição do menu.
Fonte(s): Watching the Watchers (Northeastern University), Northeastern University (artigo em PDF) e Ars Technica