Canetas emagrecedoras podem causar perda de visão? Anvisa investiga 13 casos

28 de Set de 2026 - 23:50
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Canetas emagrecedoras podem causar perda de visão? Anvisa investiga 13 casos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apura 13 casos suspeitos de uma doença rara nos olhos, associada à perda de visão, em pessoas que usam medicamentos agonistas do GLP-1, conhecidos como “canetas emagrecedoras“.

O quadro se chama “neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica”, ou NOIANA, e surge quando ocorre uma redução do fluxo de sangue para o nervo responsável por levar as imagens do olho ao cérebro.

Quando isso acontece, parte das células nervosas da região morre, levando uma perda súbita e indolor da visão, geralmente em um dos olhos, que pode deixar sequelas permanentes.

Conforme informou à VEJA SAÚDE, a Anvisa recebeu cinco notificações relacionadas ao uso de Ozempic, três de Wegovy e duas de Wegovy FlexTouch, medicamentos à base de semaglutida.

Há ainda dois registros vinculados ao Rybelsus, versão oral da substância, e uma notificação envolvendo o Mounjaro, que tem a tirzepatida como princípio ativo.

A agência reforça, porém, que esses registros representam suspeitas de eventos adversos e não casos confirmados.

“A presença do medicamento e do evento em uma notificação não estabelece, de forma definitiva, que o medicamento tenha causado a neuropatia ou a perda de visão”, disse, em nota.

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O que explicam as marcas

A Novo Nordisk, fabricante dos medicamentos à base de semaglutida citados, disse, em nota, que trabalha em conjunto com as autoridades de saúde.

Além disso, a empresa afirmou que seus ensaios clínicos, que somam mais de 83 mil pacientes por ano, registraram “pouquíssimos” casos de NOIANA confirmados e não mostraram aumento da incidência entre quem usa o remédio.

A companhia acrescenta que a semaglutida é a terapia baseada em GLP-1 com maior número de usuários e análises após a chegada ao mercado, com mais de 58 milhões de pacientes-ano e “possui um perfil de segurança bem estabelecido”.

Já a Eli Lilly, criadora do Mounjaro, afirmou que monitora ativamente as informações de segurança de todos os seus medicamentos, avalia esses dados e os reporta às autoridades regulatórias (veja as íntegras das notas ao final da reportagem).

O que diz a ciência

O tema voltou ao centro dos debates nesta semana, após um grupo de pacientes nos Estados Unidos processar a Novo Nordisk pelo risco de perda de visão, segundo mostrado por uma reportagem do The Wall Street Journal.

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Ainda não há comprovação de que as medicações causam prejuízos oculares, mas o debate ganhou força graças à publicação de um estudo, em 2024, na revista científica JAMA Ophthalmology.

Segundo a pesquisa, o risco de NOIANA entre pessoas com diabetes tipo 2 seria 4,28 vezes maior entre os usuários de semaglutida do que entre aqueles que não usavam a medicação. Já entre pessoas com sobrepeso ou obesidade, as chances aumentariam 7,64 vezes.

A análise chegou a essa conclusão após acompanhar 16.827 pacientes atendidos em uma clínica especializada em doenças neuro-oftalmológicas. Entre eles, 194 usavam semaglutida para diabetes e 361 para sobrepeso ou obesidade.

No primeiro grupo, foram registrados 17 casos de NOIANA, contra seis entre os que usavam outros antidiabéticos.

Já entre os pacientes com sobrepeso ou obesidade, foram 20 casos entre os usuários de semaglutida e três entre os que usavam outros medicamentos para perda de peso.

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Apesar dos resultados, os próprios autores ponderaram que isso não significa que o medicamento tenha causado os casos.

Como a pesquisa apenas acompanhou dados de pacientes (isto é, foi um estudo observacional), sem testar a relação de forma controlada, eles ressaltam que são necessários mais estudos para confirmar se há, de fato, uma relação de causa e efeito.

O que explicaria essa relação

Ainda não se sabe, também, o que poderia explicar essa associação. “Não se conhece o mecanismo por trás da possível relação entre os agonistas do GLP-1 e a ocorrência de NOIANA”, diz o médico Mauro Goldbaum, secretário geral do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) .

Ele ressalta, ainda, que, mesmo que a associação seja comprovada, os estudos sugerem que um aumento muito baixo. Aliás, outras pesquisas, feitas posteriormente, apontaram para associações irrelevantes ou menores do que a vista no primeiro estudo.

Além disso, Goldbaum lembra que também não dá para saber se o grupo tratado com agonistas do GLP-1 é, naturalmente, mais susceptível ao quadro, visto que, por exemplo, a diabetes é um fator de risco para NOIANA.

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Mesmo assim, desde junho do ano passado, a Anvisa determinou que a NOIANA aparecesse nas bulas dos medicamentos à base de semaglutida, ainda que descrita como uma reação adversa “muito rara“.

É preciso interromper a medicação?

A oftalmologista do hospital H.Olhos Clarissa Pereira ressalta que o estudo da JAMA deve ser interpretado com cautela.

Em primeiro lugar porque os pacientes não representavam a população em geral, até porque já eram pacientes sendo atendidos em uma clínica especializada em visão.

“Por isso, a frequência observada no estudo não pode ser diretamente comparada com a incidência da NOIANA na população geral”, diz.

Assim, a médica considera que, para pessoas que estão usando semaglutida e não apresentam sintomas visuais, as evidências atuais não justificam a interrupção automática do tratamento.

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Essas ponderações também foram apresentadas em uma nota conjunta publicada anteriormente pelas sociedades brasileiras de Diabetes (SBD), para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e de Oftalmologia (SBO).

No documento, as entidades médicas consideraram o risco absoluto muito baixo e que disseram ele não deveria ser motivo para suspensão do medicamento.

As sociedades destacaram, entre os seus argumentos, a superioridade dos benefícios comprovados da semaglutida e que “a maior causa de cegueira em pacientes com diabetes é a própria retinopatia diabética“.

Assim, as entidades passaram a recomendar:

  • Manutenção do uso da semaglutida entre pessoas assintomáticas e com indicação médica;
  • Realização de exames periódicos de retina como parte do acompanhamento de usuários com diabetes, o que já é uma recomendação para esse público, independentemente do uso da medicação;
  • Interrupção imediata em caso de NOIANA ou perda súbita da visão recentes, seguida de avaliação oftalmológica o mais rápido possível.

Por fim, as entidades recomendaram a realização de novos estudos, especialmente pesquisa de vida real em larga escala para esclarecer a possível relação entre semaglutida e NOIANA.

Para Pereira, é importante que, em caso de perda visual súbita ou rapidamente progressiva durante o tratamento, o paciente procure atendimento oftalmológico, idealmente neuro-oftalmológico, com urgência.

“Ou seja, principal alerta é: qualquer perda visual súbita durante o uso da medicação deve ser avaliada imediatamente”.

Notas na íntegra

Veja o que dizem a Novo Nordisk e Eli Lilly:

Eli Lilly

A segurança dos pacientes é a principal prioridade da Lilly. Monitoramos, avaliamos e reportamos ativamente às autoridades regulatórias as informações de segurança relacionadas a todos os nossos medicamentos. Como parte do nosso processo rotineiro de revisão de segurança, mantemos discussões contínuas com as autoridades regulatórias sobre possíveis temas de segurança e continuaremos avaliando os dados, incluindo quaisquer informações relacionadas a questões oftalmológicas. Se alguém apresentar efeitos colaterais ao utilizar um medicamento da Lilly, deve conversar com seu médico ou outro profissional de saúde.

Novo Nordisk

A segurança dos pacientes é prioridade máxima para a Novo, e levamos muito a sério todos os relatos de eventos adversos. Nos preocupamos profundamente com o bem-estar das pessoas que utilizam nossos medicamentos e colaboramos estreitamente com autoridades de saúde e órgãos reguladores em todo o mundo.

• A semaglutida possui um perfil de segurança bem estabelecido, apoiado por robustos programas de desenvolvimento clínico, com exposição pós-comercialização superior a 58 milhões de pacientes-ano em formulações orais e injetáveis para obesidade e diabetes tipo 2 (estudos SUSTAIN, PIONEER, STEP, SELECT, STRIDE, SOUL, FLOW, ESSENCE). A semaglutida tem a maior exposição pós-comercialização entre as terapias baseadas em GLP-1, proporcionando uma experiência substancial em diversas populações de pacientes.

• Recomendamos que todos os pacientes mantenham contato próximo com seus profissionais de saúde para diagnósticos corretos, tratamento adequado, orientação contínua e monitoramento cuidadoso.

Informações adicionais:

Uma análise agrupada (pooled analysis) publicada de ensaios clínicos da Novo, randomizados e controlados por placebo, com liraglutida e semaglutida, englobando mais de 83.000 pacientes-ano de observação no braço da semaglutida, identificou pouquíssimos casos de NOIA (Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior) confirmados por oftalmologistas e não demonstrou um aumento na incidência de NOIA em participantes que receberam semaglutida. Análises estatísticas sugeriram que a ocorrência de casos de NOIA foi independente do fato de os participantes terem recebido semaglutida ou placebo.

A NOIA está sendo avaliada como parte da farmacovigilância de rotina. A vigilância contínua de todos os dados de segurança não alterou essa conclusão. Uma relação causal entre agonistas do receptor de GLP-1, incluindo a semaglutida, e a NOIA não pode ser confirmada com base na totalidade dos dados. Esta avaliação baseia-se na ausência de desequilíbrios nos dados de estudos clínicos, nas limitações dos poucos estudos epidemiológicos disponíveis, na ausência de evidências de associação em dados não clínicos, no padrão inconsistente dos poucos casos pós-comercialização e na ausência de um mecanismo de ação conhecido.

Em todo o programa de ensaios clínicos com GLP-1, esses eventos foram muito raros, com três casos confirmados relatados entre pessoas que receberam semaglutida ou liraglutida, em comparação com cinco casos confirmados entre pessoas que receberam placebo. A exposição correspondente foi de 119.393 pacientes-ano de observação no grupo de tratamento ativo e 86.384 pacientes-ano no grupo placebo, com taxas abaixo de 0,01 por 100 pacientes-ano em ambos os grupos.

A semaglutida tem evidências robustas na melhoria dos desfechos de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, doença renal crônica e MASH (esteato-hepatite associada à disfunção metabólica), em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2. Além disso, dados de ensaios de desfechos cardiovasculares e renais realizados com semaglutida demonstraram redução no risco de morte em participantes tratados com semaglutida em comparação ao placebo.

Considerando a totalidade das evidências de ensaios clínicos, relatos de pós-comercialização e estudos observacionais, somados à incidência geralmente baixa de NOIA, a Novo acredita que o perfil de benefício-risco da semaglutida permanece favorável. A Novo está comprometida com a segurança dos pacientes e monitora continuamente o perfil de segurança de seus medicamentos da classe GLP-1. Caso dados emergentes de segurança exijam novas ações, medidas apropriadas serão implementadas de acordo com os requisitos regulatórios.

Não observamos nenhum sinal de alerta de segurança em nossos ensaios clínicos randomizados, que somam mais de 83.000 pacientes-ano de observação nos braços de semaglutida, conforme evidenciado pelo artigo recente publicado no British Journal of Ophthalmology. Uma relação causal entre agonistas do receptor de GLP-1, incluindo a semaglutida, e a NOIA não pode ser confirmada com base na totalidade dos dados.

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